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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

NO REINO DO FA-LO-IA DE CONTA


Eduardo Simbalista

No jogo do faz de conta, é tudo já página virada, assunto superado, como se em política houvesse assunto superado.

A raposa, com maestria, procrastina a disputa entre o suíno e o gato, que pôs o dedo onde não devia e descobriu que focinho de porco não é tomada. O ministro acaciano, que vive também acima do teto, vem explicar àqueles que ainda não entenderam a regra do jogo: o fiador dos acordos é intocável e não pode virar presunto assim, assim, sem mais nem menos; no presidencialismo, quem nomeia e demite ministros é o presidente.

Estar-se-ia à véspera de importantes votações e de gordas delações que deverão trazer cordas e guizos para muitos pescoços engravatados. E é sempre preciso cuidado com o mágico Dallagnol no circo Guignol. No reino das mesóclises, indeciso diante da indecisão, dança-se o velho tango janista: dois prá lá, dois pra cá e ainda mais um recuo.

O respeitado constitucionalista, por sua vez, escapará vaidosamente: isso é lá com o Congresso, dirá, lustrando o respeito à autonomia dos poderes. A lição do veto aos projetos do salve-se quem puder ficará para segunda época.

Agora, devemos deixar Geddel trabalhar em prol do Brasil. Entre o cinismo e a hipocrisia, o ministro demissionário é chamado de inculto e pouco diplomata: “não entendeu o pleito”; “não está acostumado ao jeito de ser do suíno”; “é mentira: acobertaremos”.

Para bom entendedor: a nota de amplo e irrestrito apoio de uma vintena de líderes parlamentares faz de conta que blinda, mas vem revelar e expor o “operador político da melhor qualidade”, isto é, o fiador dos acordos do toma lá-dá-cá, feitos entre gedéis e bacharéis, em nome da maioria necessária para aprovação das reformas necessárias e, de quebra, da anistia aos caixas 1, 2, 3 e 4. É aquele no qual os cúmplices podem confiar. É nova versão do mensalão, agora sob a vetusta e honrada capa da salvação nacional. Afinal, a falência dos Estados ameaça a Federação e os bezerros voltaram a reconhecer suas tetas no curral.

Os sinais estão trocados. Nesse quase dezembro, faz frio. A cigarra canta. A seca no Nordeste e as chuvas no Sul revelam: as águas devem estar irrigando novos açudes.

Daqui a pouco, será Natal e com ele virá o recesso de fim de ano. O bedel Geddel baterá o sino de férias. Não teremos nem sessões de votação nem de buscar filho na escola. No calendário, apenas a eleição das mesas do Congresso. Entre rossos, renans e maias, a nau estará à deriva.

Ah, forças ocultas! Num a bebida, noutro a vaidade e as más companhias. Na ilha da fantasia política, surda à sociedade, poder-se-á ouvir e talvez, digamos assim, dançar o último tango.

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