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sábado, 18 de março de 2017

Síria: seis anos de dor

Editorial – Rádio Vaticano - 18/03/2017


Cidade do Vaticano (RV) – Na última quarta-feira, dia 15 de março, foi o aniversário de uma das situações mais trágicas vividas neste início de milênio: os seis anos da guerra na Síria. Nestes últimos anos chegamos “até a nos acostumar” com as imagens de destruição e desolação, imagens de rios de pessoas que fugiram e fogem da guerra. “Uma aventura sem retorno”, disse certa vez São João Paulo II.

São milhões de pessoas que vivem sob o terror de bombas, de violências, de perseguições. Mas temos também outros milhões que fugiram desse “inferno de horror” e vivem em campos de refugiados, onde o olhar para o futuro, neste momento, não existe. 

Existe somente dor, sofrimento, fome, tristeza, morte. Os refugiados tiveram que se reinventar para poderem sobreviver. Também os que permaneceram na Síria tiveram que inventar um novo modo para viver.

Neste drama no drama, consumam suas vidas as crianças, vítimas inocentes de ações insensatas dos adultos. São elas, junto com as mulheres e os idosos a pagarem o preço mais alto.

O trabalho infantil e a prostituição se tornaram para muitos os meios de sobrevivência denunciou nesta semana a ONG internacional Ação contra a Fome (AAH). “A maioria dos deslocados e refugiados já esgotaram seus mecanismos imediatos de adaptação” e criaram recursos extremos de sobrevivência.

O desespero fez com que as vítimas do conflito sírio não tivessem outra saída a não ser o 
trabalho infantil, a exploração no trabalho, o casamento precoce e a prostituição.

É inaceitável que as criança paguem o preço mais alto. Algumas delas não conhecem outra realidade a não ser a guerra. Outras nasceram debaixo de bombardeios e sofrem pressões psicológicas enormes. Raramente, aparece um sorriso em seus rostos. O sofrimento se manifesta em seus olhos espantados. Acordam com os sons de explosões, de bombas e mísseis.

A Síria continua sendo "um desafio humanitário", já que cerca de cinco milhões de pessoas estão em zonas fora do alcance de ajudas humanitárias. O país árabe precisa de ajuda para 13,5 milhões de pessoas, sendo quase metade crianças, e de maneira "urgente" para 5,6 milhões, com o objetivo de "suprir suas necessidades básicas", e isso só "dentro da Síria".

Durante a guerra "os atores e as zonas do conflito evoluíram, mas o sofrimento da população continua".

O Observador Permanente da Santa Sé na ONU, em Genebra, na Suíça, Dom Ivan Jurkovič, falando durante a 34ª sessão do Conselho das Nações Unidas para os Direitos Humanos fez um forte apelo de paz pela Síria. O arcebispo falou de uma “situação desastrosa”: Seis anos de violência provocaram milhares de mortos e feridos. Destruíram infraestruturas, casas, escolas, hospitais e lugares de culto. Cidades inteiras foram devastadas. Desnutrição e assistência médica inadequada. “Esta é a realidade triste que o povo sírio enfrenta a cada dia”.

A Santa Sé reitera a sua solidariedade ao povo sírio, sobretudo para com as vítimas da violência, e encoraja a comunidade internacional a abraçar a perspectiva das vítimas. Seis anos de massacre inútil mostram mais uma vez a ilusão e a futilidade da guerra como meio para resolver as controvérsias.

A ambição pelo poder político, os interesses egoístas e a cumplicidade dos que fomentam a violência e o ódio, com a venda de armas, provocaram um êxodo de milhões de pessoas da Síria desde 2011, deixando para outros milhões de pessoas.

O diálogo em todos os níveis é o único caminho que temos. Pequenos passos nesta direção foram dados recentemente, mas recordamos com veemência que a situação da Síria não pode ser resolvida com uma solução militar. Não se deve ceder à lógica da violência, pois a violência gera somente violência.

Durante a Santa Missa na Capela da Casa Santa Marta na última quinta-feira, o Papa Francisco falando sobre a estrada do pecado que leva à corrupção,  - recordando a passagem do rico e do pobre -, reiterou a necessidade de percebermos quando estamos no caminho “escorregadio do pecado rumo à corrupção”. E fez perguntas: “O que eu sinto”, quando vejo na televisão “que caiu uma bomba lá, sobre um hospital e morreram muitas crianças”, “coitadinhas!”, disse. Então, faço uma oração e depois continuo vivendo como se nada tivesse acontecido? Entra em meu coração isso” ou “sou como aquele rico, em que o drama de Lázaro, do qual os cães sentiam mais piedade, não entrou em seu coração? Se fosse assim estaria no caminho do pecado para a corrupção”.

O sofrimento injusto das vítimas inocentes desse massacre na Síria sem sentido deve motivar todas as partes envolvidas a se comprometerem com o diálogo sério e a trabalhar pelo futuro de paz e justiça. Brota da Santa Sé um novo apelo para que a paz, o perdão e a reconciliação possam triunfar sobre a violência e o ressentimento. (Silvonei José)

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