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terça-feira, 18 de julho de 2017

Ética na política


Dom Jaime Spengler
Arcebispo de Porto Alegre

O ser humano pode se encontrar numa situação histórica de não ver nenhum motivo para continuar a esperar. No entanto, os cristãos, para além de todos os desafios, não podem permitir que lhe roubem a esperança.

O Brasil vive uma crise política e ética que preocupa parcela considerável da sociedade. Torna-se sempre mais clara a necessidade de urgente promoção e defesa da ética na política. A vigilância e a participação efetiva de todas as forças da sociedade nesse processo há de contribuir para resgatar a confiança nessa nobilíssima atividade humana, a qual cuida do bem comum.

Diante das recentes e contínuas denúncias de corrupção envolvendo alguns homens públicos brasileiros, o sentimento de muitos é de espanto e indignação. Os valores manipulados pela prática da corrupção alcançam cifras que a maioria da população não consegue imaginar. Os números tornados públicos indicam frieza e cálculos orientados por princípios aéticos. Trata-se de uma calculabilidade que não é capaz de colher a medida justa e plena da ação ética.

A corrupção política trai os princípios da moral e as normas da justiça social. Ela distorce a função das instituições representativas de um estado de direito, porque usa tais instituições como terreno de barganha política entre solicitações clientelares e favores dos governantes. Por isso, as denúncias apresentadas exigem certamente exemplar, rigorosa e rápida apuração pelas competentes instituições da sociedade organizada, observado o princípio do estado de direito.

“Na vida pública, na política, se não houver a ética, uma ética de referimento, tudo é possível e tudo se pode fazer”, disse o Papa Francisco. A nação precisa encontrar saídas para a atual crise que respeitem e fortaleçam o estado democrático de direito.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil publicou na última semana uma nota, na qual afirma que “a superação da grave crise vivida no Brasil exige o resgate da ética na política que desempenha papel fundamental na sociedade democrática. Urge um novo modo de fazer política, alicerçado nos valores da honestidade e da justiça social”. A nota continua, recordando o que fora afirmado durante a Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, celebrada recentemente em Aparecida: “O desprezo da ética leva a uma relação promíscua entre os interesses públicos e privados, razão primeira dos escândalos da corrupção”.

Diante do quadro político brasileiro, pode ser de auxílio recordar o que diz a Doutrina Social da Igreja: “Para os fiéis leigos, o compromisso político é uma expressão qualificada e exigente do compromisso cristão ao serviço dos outros. A persecução do bem comum em um espírito de serviço; o desenvolvimento da justiça com uma atenção particular para com as situações de pobreza e sofrimento; o respeito pela autonomia das realidades terrenas; o princípio de subsidiariedade; a promoção do diálogo e da paz no horizonte da solidariedade; são estas as orientações em que os cristãos leigos devem inspirar sua ação política. Todos os que creem, enquanto titulares de direitos e deveres de cidadãos, estão obrigados a respeitar tais orientações; aqueles que tem encargos diretos e institucionais na gestão das complexas problemáticas da coisa pública, seja nas administrações locais, seja nas instituições nacionais e internacionais, deverão tê-las especialmente em conta”.

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