Dom Walmor Oliveira de Azevedo - Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte – MG
A sociedade brasileira precisa estar convicta de que a
moralidade é o “ouro primeiro” de todos os processos. Nem mesmo inteligências
estratégicas, procedimentos bem articulados e as soluções para os graves
problemas são capazes de resistir à falta de tradição moral, fundamental para a
construção do bem comum que precisa ser respeitado e promovido.
Isso porque, o equilíbrio e a identidade de uma nação
dependem fundamentalmente de um conjunto de normas, valores e costumes que
constituem o tesouro de uma rica tradição moral. Assim, a sociedade deve se
conduzir pelos princípios de sua carta maior, a Constituição Federal, que reúne
referências normativas com o objetivo de garantir a justiça e fomentar a
construção de uma cidadania solidária.
A letra da norma, aquilo que está explícito na lei,
resulta de processos interpretativos e de desdobramentos socioculturais e
religiosos. Processos capazes de inspirar os seres humanos - congregados em
povos e culturas - a leituras e entendimentos que possibilitem a configuração
de uma tradição moral que ordene vivências, convivências, procedimentos e
funcionamentos.
Assim, uma sólida tradição moral não se configura a
partir de simples recursos de subjetividades ou de ideologias. É fruto da
interação dos seres humanos que se articulam na importante tarefa de edificá-la
pela essencialidade do relacionamento entre pessoas e pela referência dos
valores morais e princípios éticos, inegociáveis e intocáveis - cláusulas
pétreas.
Uma exemplar singularidade dentre essas cláusulas é a
inviolabilidade do dom e do direito à vida, que tem de ser respeitada em todas
as suas etapas - da fecundação ao declínio, com a morte natural. Toda legislação em contrário fere e
desestabiliza o tecido da tradição moral, com graves prejuízos para todos.Mas
preservar o bem comum não é tarefa fácil, exige cuidado e atenção, uma
verdadeira luta no interno da sociedade. Não se pode desconsiderar a tendência
de se buscar, simplesmente, o interesse pessoal.
O egoísmo tem força para fazer passar o interesse de um
ou de determinado grupo e segmento em prejuízo do outro ou do bem comum. A
perda da tradição moral representa grave comprometimento da autoridade. Nesse
horizonte, a prioridade deve ser o investimento na formação de condutas
pautadas no respeito a valores ético-morais – não se fala aqui, absolutamente,
de moralismos e conservadorismos, mas de rever conceitos e comportamentos.
É preciso investir na recuperação da moralidade, em todos
os setores, envolvendo oconjunto dos cidadãos, para alavancar projetos de
desenvolvimento integral, de qualificação da cidadania. Esse percurso de
formar, recompor e manter a tradição moral, indispensável a uma nação,não pode
ser fruto de subjetivismo ou imposição ideológica. Os processos educativos,
formais, familiares e nas diferentes circunstâncias e processos que compõem a
vida cotidiana, têm séria responsabilidade por contribuir significativamente
para que esse tecido erodido por muitas causas e razões se recomponha.
O comprometimento do tecido moral, particularmente quando
considerados osesquemas de corrupção e depredação do erário, o modo
irresponsável com que é tratado o bem público, requer a ação de bons gestores,
que representem o povo nas suas instituições, e cidadãos honestos nas relações
do dia a dia, nas mais comuns circunstâncias.
O atendimento a essa demanda urgente exige que se
considere a importância do tesouro em que a moralidade está inscrita,
especialmente neste ano eleitoral quando a credibilidade de candidatos está em
questão. A tradição moral na política está sucateada e por isso o preço do
descrédito é grande. O mesmo ocorre na esfera religiosa e não menos, de modo
preocupante, no mundo do judiciário e em outros tantos segmentos da sociedade.
Assusta muito ver decisões, frutos de interpretações de leis e normas, com
favorecimentos por conivência, por poder ou até mesmo por mediocridade em razão
da pouca competência, não só acadêmico-científica, mas sobretudo pelo
distanciamento de sólidas tradições morais.
É necessário assimilar a convicção de que a moralidade é
a alavanca única que pode sustentar, dar consistência e empurrar na direção
certa. A sociedade precisa, em todos os ambientes e segmentos, contar com
cidadãos e cidadãs que, acima de tudo e prioritariamente, considerem, vivam e
testemunhem a moralidade a peso de ouro.

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