Sebastião Nery
RIO – Desço no aeroporto de Portella de Sacavém, em
Lisboa, em 1977. Passo no Hotel Phenix, deixo a mala, ligo para Marcio Moreira
Alves, exilado lá. Atende outro:
– Nery, aqui é o David.
– David Lerer, o guerrilheiro africano?
– Cheguei hoje de Angola. Quase fui fuzilado lá. E você?
O que é que está fazendo aqui?
– Passei uns meses na Espanha, cobrindo as eleições da
Constituinte, vou na próxima semana a Paris e Moscou. Estou indo para aí agora
mesmo.
Dez minutos e o taxi me deixava na Rua Sant’Ana em Lapa,
onde ouvi a mais extraordinária história de guerra e política vivida por um
brasileiro no exílio. Fiquei comovido:
– David, arranja um gravador e vamos começar a escrever
um livro.
Começamos. Eu bebia vinho e perguntava, esmiuçava, David
bebia vinho e contava. Depois de quatro horas de gravação, David empacou:
– Não dá mais, Nery. As feridas ainda estão frescas demais.
Mais para a frente a gente continua.
Passei uma semana revendo amigos, Marcito, Irineu Garcia,
Moema Santiago, toda a colônia brasileira exilada, e perambulando com David
pelas velhas ruas, entre vinhos e bacalhaus, arrancando dele, sem gravador,
pedaços de suas fantásticas histórias. Viajei, David começou a dar aulas na
Faculdade de Medicina de Lisboa, esperando o fim do exílio.
Em abril de 1975, eu tinha chegado a Lisboa para ver as
eleições da Constituinte, contratado pela Editora Francisco Alves para escrever
meu livro “Portugal um Salto no Escuro”. O roteiro foi o mesmo que repeti dois
anos depois, em 1977. Descer no aeroporto de Sacavem, deixar a mala no velho
hotel Phenix, seguir para a casa de Marcio Moreira Alves, que, naqueles tempos
de ditadura, era a verdadeira embaixada do Brasil em Lisboa.
Uma semana depois, Marcito, David Lerer, César Mesquita,
o diretor- editor da “Francisco Alves”, eu e Vera Mata Machado, cortamos
Portugal de ponta a ponta, leste-oeste, norte-sul.
Em Santiago do Cacem, pequena vila branca do Baixo
Alentejo, encravada nas vertentes da Serra de Grandola, eu vi, uma tarde, no
cemiteriozinho de túmulos nus, Marcito e David contemplarem longo tempo as
cruzes com os nomes de vários filhos do lugar, meninos do povo “mortos em
combate em África”. Os dos ricos iam para Paris e Madrid.
Marcito, como eu, também estava pesquisando para seu
livro “Os Soldados Socialistas de Portugal”, publicado primeiro em Lisboa.
Em geral a imprensa cometeu dois graves erros com ele.
Primeiro destacou apenas o pequeno discurso de 2 de setembro no “Pinga Fogo” da
Câmara, protestando contra a invasão da Universidade de Brasília e o fechamento
da Universidade da Bahia.
O grande discurso dele, que ninguém tirará da história do
Congresso brasileiro, foi o do dia 12 de dezembro, na sessão de tentativa de
cassação de seu mandato, quando ele mostrou o que era: um valente, lúcido,
orador primoroso, lembrando ao Congresso que a ditadura não estava interessada
apenas em cortar o seu pescoço, mas em dar o primeiro passo para decepar o
parlamento inteiro e o judiciário. E foi o que aconteceu.
O segundo erro é ver o Marcito apenas como um jovem
jornalista brilhante, talentoso e prematuro que já aos 18 anos cobria a guerra
do canal de Suez para o “Correio da Manhã”, aos 22 ganhava o Prêmio Esso no
tiroteio da Assembleia de Alagoas e em 1966 se elegeu deputado federal.
Muito mais do que isso, ele foi um intelectual atento,
culto, estudioso e bravo que, nos primeiros anos da ditadura, teve a coragem de
ser o primeiro a denunciar as torturas, não apenas no “Correio da Manhã”, mas
nas vitrines das livrarias com o seu desafiador “Torturas e Torturados”, que
obrigou Castelo Branco a enviar aos quartéis, numa missão factóide e
fraudulenta, o general Geisel, que voltou dizendo que não havia tortura.
A universal sabedoria ensina que a melhor forma de se
conhecer um homem é na prisão, no exílio ou no jogo. Não conheci Marcito na
prisão. Mas eu o vi em Paris e Lisboa, discretamente, silenciosamente, ajudando
exilados que chegavam sem ter o que comer. Era um elegante e um bom.

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