terça-feira, 4 de setembro de 2018

Uma noite no Museu: a morte e a morte de Luzia


Eduardo Simbalista



Perda irreparável, tragédia incalculável, comoção cultural bradam aos ventos pelas ventas as autoridades politicantes que, de tempos a esta parte, tomaram, como Nero, o gosto de atear fogo na responsabilidade pública.

Em nome do rigor orçamentário, continuam a irrigar federações e clubes de futebol com polpudas verbas das loterias e sequer se lembram de botar umas minguadas fichas em favor da Loto Cultural. Desvios arrastam as águas dos recursos da Lei Rouanet para projetos carimbados.


Luzia: nova morte, 12 mil anos depois
Há 40 anos, numa noite trágica, ardia o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e, com ele, telas de Picasso, Miró, Matisse, Dali e Portinari e todas as 80 obras da fase construtivista do gênio uruguaio Joaquín Torres-García, então em exposição. Relatos dão conta de que o fogo teria começado no segundo andar, sendo arrastado pelo vento que soprava da baía da Guanabara. Bombeiros chegaram atrasados com dois carros em sirenes: um com defeito mecânico, outro com a mangueira furada. A falta d’água deu cabo do resto. O dano foi irreparável.
Há quase três anos, queimava o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. O fogo começou no primeiro andar e, rapidamente, chegou ao telhado, ameaçando a vizinha Estação da Luz, destruída anos antes por “pavoroso incêndio que, como um braseiro, iluminou toda a cidade”. Era 1946, mês de novembro. O relógio no alto da torre parou às 4h10. A água era escassa; os prejuízos incalculáveis.

Há cinco anos, o fogo destruía a exposição de pesquisas do paleontólogo e naturalista dinamarquês Peter Lund sobre a Era do Pleistoceno e a Vida no Cerrado, no Museu de Ciências Naturais da PUC de Minas.

Na noite deste domingo, ardeu o Museu do Palácio de São Cristóvão, o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. Todos sabem o que se perdeu: documentos, livros, pergaminhos, coleções, enciclopédias, murais, fósseis, sarcófagos, tronos, mobiliário imperial. Só não se perdeu a vergonha.

O luto é da Nação: morre aos 200 anos o Museu de História do Rio de Janeiro e, com ele, morre outra vez Luzia, agora aos 12 mil anos. A justiça falha, mas não tarda.

Nossos sentimentos.

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