Eduardo Simbalista
Perda irreparável, tragédia incalculável, comoção
cultural bradam aos ventos pelas ventas as autoridades politicantes que, de
tempos a esta parte, tomaram, como Nero, o gosto de atear fogo na
responsabilidade pública.
Em nome do rigor orçamentário, continuam a irrigar
federações e clubes de futebol com polpudas verbas das loterias e sequer se
lembram de botar umas minguadas fichas em favor da Loto Cultural. Desvios
arrastam as águas dos recursos da Lei Rouanet para projetos carimbados.
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| Luzia: nova morte, 12 mil anos depois |
Há 40 anos, numa noite trágica, ardia o Museu de Arte
Moderna do Rio de Janeiro e, com ele, telas de Picasso, Miró, Matisse, Dali e
Portinari e todas as 80 obras da fase construtivista do gênio uruguaio Joaquín
Torres-García, então em exposição. Relatos dão conta de que o fogo teria
começado no segundo andar, sendo arrastado pelo vento que soprava da baía da
Guanabara. Bombeiros chegaram atrasados com dois carros em sirenes: um com
defeito mecânico, outro com a mangueira furada. A falta d’água deu cabo do
resto. O dano foi irreparável.
Há quase três anos, queimava o Museu da Língua
Portuguesa, em São Paulo. O fogo começou no primeiro andar e, rapidamente,
chegou ao telhado, ameaçando a vizinha Estação da Luz, destruída anos antes por
“pavoroso incêndio que, como um braseiro, iluminou toda a cidade”. Era 1946,
mês de novembro. O relógio no alto da torre parou às 4h10. A água era escassa;
os prejuízos incalculáveis.
Há cinco anos, o fogo destruía a exposição de pesquisas
do paleontólogo e naturalista dinamarquês Peter Lund sobre a Era do Pleistoceno
e a Vida no Cerrado, no Museu de Ciências Naturais da PUC de Minas.
Na noite deste domingo, ardeu o Museu do Palácio de São
Cristóvão, o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. Todos sabem o que se
perdeu: documentos, livros, pergaminhos, coleções, enciclopédias, murais,
fósseis, sarcófagos, tronos, mobiliário imperial. Só não se perdeu a vergonha.
O luto é da Nação: morre aos 200 anos o Museu de História
do Rio de Janeiro e, com ele, morre outra vez Luzia, agora aos 12 mil anos. A
justiça falha, mas não tarda.
Nossos sentimentos.


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