Lava Jato reage e diz que decisão do Supremo é dissonante com 'sentimento de repúdio à impunidade'
ESTADÃO - Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Paulo Roberto
Netto
Integrantes da força-tarefa da Operação Lava Jato em
Curitiba divulgaram nota em que afirmam que respeitam a decisão do Supremo
Tribunal Federal (STF) de acabar com a execução da pena em segunda instância,
votada nesta quinta-feira, 7, mas que a medida é dissonante ao sentimento de
"repúdio à impunidade e com o combate à corrupção".
"A decisão do Supremo deve ser respeitada, mas como
todo ato judicial pode ser objeto de debate e discussão. Para além dos sólidos
argumentos expostos pelos cinco ministros vencidos na tese, a decisão de
reversão da possibilidade de prisão em segunda instância está em dissonância
com o sentimento de repúdio à impunidade e com o combate à corrupção,
prioridades do País", informa a força-tarefa, em nota distribuída via
assessoria de imprensa.
"A existência de quatro instâncias de julgamento,
peculiar ao Brasil, associada ao número excessivo de recursos que chegam a
superar uma centena em alguns casos criminais, resulta em demora e prescrição,
acarretando impunidade."
Segundo a nota, eles reconhecem que a decisão do STF
"impactará os resultados" do trabalho da força-tarefa - que consegui
abrir mais de 100 processos penais em seis anos de Lava Jato - e afirmam que
seguirão o trabalho. "A força-tarefa expressa seu compromisso de seguir
buscando justiça nos casos em que atua."
Bastidores. A decisão do STF de mudar o entendimento sobre
execução provisória da pena em segunda instância era mais uma derrota anunciada
para integrantes das força-tarefas da Lava Jato, que internamente acusam golpe
organizado da classe política em busca de salvação.
Em reservado, investigadores afirmaram que vão respeitar a
decisão, mas entendem que a medida é um retrocesso grave para o combate à
corrupção e à impunidade de criminosos do colarinho branco no Brasil. E que
eleva a insegurança jurídica no País ao se somar a outras medidas recém
adotadas, como envio de processo para Justiça Eleitoral.
O Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) tem cerca de 100 condenados em
segunda instância da Lava Jato de Curitiba, que podem buscar alteração no
cumprimento de suas penas, de alguma forma, com decisão do STF, desta quinta.
Um levantamento da força-tarefa de Curitiba apontou que 38 condenados poderiam
ser beneficiar com a mudança de entendimento do STF.
"É mais uma medida que fará parte da reação unificada
de interesses para salvar o sistema político. É mais do que uma derrotada para
a Lava Jato, é um retrocesso para o combate à corrupção no País e uma vitória
para criminosos poderosos que voltarão a ter como garantia para cometer seus
desvios a impunidade de uma Justiça sem fim", afirmou um integrante da
Lava Jato.
Não se fala em reação. Uma possibilidade em discussão é a
atuação para tentar no Congresso uma mudança legal, via emenda constitucional,
que torne explicita e clara a possibilidade de início da execução da pena. Pelo
sistema processual penal brasileiro, em segundo grau se encerra a discussão de
culpabilidade do réu e da existência de provas do crime. No Superior Tribunal
de Justiça (STJ) e no STF - espécie de "quarta instância" - os
recursos discutem aspectos legais e constitucionais da sentença e é onde, em
geral, os recursos se arrastam até que as penas prescrevam.
Em discurso recente, a ex-procuradora-geral da República
Raquel Dodge defendeu essa hipótese de emenda e considerou a prisão em segunda
instância é uma "medida proporcional" do sistema de Justiça.
Entre membros da Lava Jato, no entanto, não há vontade
política visível no Congresso para aprovar mudança legal. A aprovação do novo
texto da Lei de Abuso de Autoridade, duramente criticada por magistrados,
procuradores e policiais, o esvaziamento do pacote de Lei Anticrime do ministro
da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, são para eles prova de que entre
parlamentares não haverá maioria para reversão.
O procurador da República aposentado e ex-integrante da
Lava Jato Carlos Fernando do Santos Lima chegou a escrever, em seu perfil em
rede social da internet, que são "ingênuos os que pensam que o Congresso
vai votar qualquer lei para prender após condenação em segunda instância".
Números. O TRF-4 sentenciou 147 réus da Lava Jato nesses
seis anos. Com sede em Porto Alegre (RS), o tribunal revisa as decisões da 13.ª
Vara Federal de Curitiba, origem da operação - onde há cerca de 100 ações
penais abertas desde 2014. Das 47 sentenças da primeira instância, 41 recursos
- tecnicamente, as apelações criminais - foram julgados pelo tribunal de
segunda instância. São aproximadamente 115 condenados, segundo dados dos
processos do tribunal e da Procuradoria Regional da República da 4.ª Região
(PRR-4).
Os casos são analisados na 8.ª Turma Penal do TRF-4,
responsável pelos casos da Lava Jato. O relator dos processos é o desembargador
João Pedro Gebran Neto. Contra as decisões do tribunal, foram apresentados 36
recursos, especiais e extraordinários, de 25 condenados, para serem analisados
no STJ.
LEIA A NOTA NA INTEGRA DA NOTA DA FORÇA-TAREFA DA LAVA JATO
EM CURITIBA
"A decisão do Supremo deve ser respeitada, mas como
todo ato judicial pode ser objeto de debate e discussão. Para além dos sólidos
argumentos expostos pelos cinco ministros vencidos na tese, a decisão de
reversão da possibilidade de prisão em segunda instância está em dissonância
com o sentimento de repúdio à impunidade e com o combate à corrupção,
prioridades do país. A existência de quatro instâncias de julgamento, peculiar
ao Brasil, associada ao número excessivo de recursos que chegam a superar uma
centena em alguns casos criminais, resulta em demora e prescrição, acarretando
impunidade. Reconhecendo que a decisão impactará os resultados de seu trabalho,
a força-tarefa expressa seu compromisso de seguir buscando justiça nos casos em
que atua."

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