A proteção climática global não apresenta um quadro otimista do ponto de vista científico. Essa foi a principal mensagem do seminário “O Estado de Direito Ambiental: Realidade e Perspectivas no Brasil e na Alemanha”, promovido pelas comissões de Meio Ambiente (CMA) e de Relações Exteriores (CRE) – do Senado - nesta quinta-feira (28). De iniciativa dos senadores Fabiano Contarato (Rede-ES) e Nelsinho Trad (PSD-MS), o evento teve como base a atuação das duas comissões em grandes temas da atualidade. Participaram autoridades dos Judiciários brasileiro e alemão e renomados pesquisadores dos dois países.
A presidente do Grupo Especialista em Mudança do Clima da
Comissão Mundial de Direito Ambiental da União Internacional para Conservação
da Natureza, Christina Voigt, disse que as grandes concentrações de gás
carbônico (CO2) registradas no planeta estão levando o mundo a um aumento de
temperatura em torno de 3,2 graus, com graves consequências para o ser humano e
para a natureza. De acordo com Christina, as metas de redução precisam chegar à
escala zero e serem mantidas abaixo desse índice.
— Este é um aspecto muitas vezes não mencionado. Além de
termos menos tempo, essa redução exige transformações e mudanças rápidas de
todos os setores: energia, transporte, agricultura, silvicultura. Ou seja, a
humanidade já realizou muitas mudanças rápidas, mas nunca neste âmbito, nem
nesse volume. Estamos diante de um desafio sem precedentes — declarou.
Presidente da CRE, o senador Nelsinho Trad observou que o
Brasil tem assumido todos os compromissos internacionais relativos ao
desenvolvimento sustentável. Ele afirmou que o país conta com uma das
legislações mais modernas do mundo nessa área desde 1930, tendo sido
aperfeiçoada ao longo dos últimos 60 anos e, mais especificamente, após a conferência
de Estocolmo, em 1972. O parlamentar, no entanto, apontou desafios do Brasil
para promover um desenvolvimento sustentável em consonância com a manutenção
das condições de vida dos cidadãos e, ao mesmo tempo, manter o controle do
território contra atividades ilegais. Ao reconhecer a seriedade do tema,
Nelsinho disse estar aberto ao diálogo e a sugestões construtivas para o
setor.
— Saibam que o Congresso brasileiro é comprometido com o
desenvolvimento sustentável e com o exercício do papel de vigilância permanente
nessa área — afirmou.
O presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ),
ministro João Otávio de Noronha, destacou a riqueza ambiental do Brasil, com
seus diversos biomas. E disse que é esse aspecto diferenciado que torna o país
parâmetro mundial das medidas de proteção ao meio ambiente. O ministro
confirmou que há grandes demandas judiciais relativas ao tema, mas garantiu que
o Poder Judiciário tem exercido um papel preponderante na área. João Otávio
lembrou que o Brasil conta com legislação e medidas sólidas de proteção
ecológica. Mas disse que somente o fortalecimento da educação e dos órgãos
fiscalizadores levarão o país a cumprir com mais propriedade suas metas
ambientais.
— O compromisso legislativo brasileiro com o meio ambiente
é incomum, quando comparado à legislação americana ou europeia, por exemplo.
Temos emoldurado na Constituição algo muito precioso, que faz-nos sempre manter
o compromisso com o equilíbrio ambiental não apenas para nós, mas para as
gerações futuras. Mas só vamos atingir o grau desejado de convivência no país
respeitando o meio ambiente quando a educação e o planejamento integrarem a
conduta das autoridades e do povo brasileiro.
O ministro do STJ Antonio Herman Benjamin elogiou a
iniciativa de Fabiano Contarato e Nelsinho Trad de propor o seminário,
lembrando que os grandes biomas brasileiros estão representados no Senado. O
ministro ressaltou a importância do tema para toda a sociedade, observando que
o Estado democrático de direito tem sido cada vez mais um “estado de deveres”
para a coletividade, a nação e, no plano internacional, relativos à humanidade.
Herman Benjamin observou que todas as legislações determinam um meio ambiente
equilibrado, mas isso também envolve atribuições e responsabilidades. O ministro
afirmou ainda que, embora o Brasil tenha essa consciência e tradição
institucional, é preciso reforçar a obediência às leis.
— Temos uma das legislações mais avançadas do mundo. Temos
o Ministério do Meio Ambiente, que continua a existir, mas também órgãos
ambientais em todo o país. Temos, ao contrário de muitos países, centenas de
precedentes no STJ cuidando da questão ambiental. Não obstante, o número de
espécies ameaçadas de extinção não para de crescer, o desmatamento aumenta, a
qualidade das nossas águas se deteriora. Há uma espécie de desconexão entre
esse paraíso legislativo e a realidade da proteção ao meio ambiente —
destacou.
O secretário de Relações Internacionais do Ministério do
Meio Ambiente, Roberto Castello Branco, comentou que a questão ambiental é
global e tem levado os países a tomarem decisões rápidas. Ele apontou a
iminência da participação do Brasil na COP-25, cujo Acordo de Paris será tema
central. O evento começa nesta segunda-feira (2), em Madri, na Espanha.
Castello Branco lembrou compromissos financeiros assumidos pelo Brasil para a
redução da emissão de gases e manutenção da temperatura do planeta, observando
que essas medidas já têm sido implementadas devido à urgência e relevância do
tema.
— Sobre decisões que antes eram tomadas e levavam anos para
entrar em vigor, a questão ambiental colocou uma pressão muito grande e os
acordos agora são feitos e praticamente entram em vigor imediatamente. Isso se
deve à conscientização de que essa é uma questão mundial e compromisso de
todos.
Experiência alemã
Segundo participantes do seminário, Brasil e Alemanha têm
um sólido sistema legal de proteção do meio ambiente. Também desenvolveram, a
partir dos anos 1970, instituições e mecanismos de implementação dessa
legislação ambiental, contando hoje com respeitados órgãos federais, estaduais
e municipais, bem como com entidades da sociedade civil organizada. Nos últimos
anos, a expressão “Estado de direito ambiental” vem se consolidando na
comunidade internacional. Nela, fica claro o propósito de “ambientalizar” o
Estado de direito. Ou seja, a ideia de inexistir verdadeiro Estado de direito
sem proteção efetiva do meio ambiente.
Professor da Universidade de Frankfurt, Eckard Rehbinder
considerou, no entanto, que o termo proteção ambiental deve ser mais bem
definido. Ele apontou a necessidade de reorientação, inclusive, dos conceitos
jurídicos sobre o tema. Segundo o especialista, o princípio de Estado de
direito ecológico é importante, mas não pode haver um nível exagerado de otimismo
a respeito do assunto. Para Rehbinder, os cuidados com o meio ambiente ainda
envolvem uma necessidade de transformação da economia e da própria
sociedade.
— O Estado de direito ecológico sugere como melhorar a
política ambiental, mas há um nível de abstração demasiadamente elevado para
produzir efeitos de monitoramento efetivo. Carecemos de um direito estatal e
atuação responsável dos atores sociais que revelarão conflitos até agora
encobertos. Temos que nos perguntar sempre se o Estado de direito ecológico,
numa economia e sociedade não ecológicas, não se choca com fronteiras que o
transformem num direito meramente simbólico – questionou.
Integrante do Conselho Consultivo do Governo Federal Alemão
sobre Mudança do Ambiental Global, a professora doutora Sabine Schlacke disse
que a legislação ambiental caminha na direção certa, mas ainda não é
suficiente. Para a especialista, as normas alemãs relativas ao tema têm lacunas
e defeitos, como a falta de coordenação e de clareza. A pesquisadora criticou a
falta de articulação entre órgãos ambientais alemães, a existência de
estruturas em dobro, mas com estratégias diferentes, e apontou uma desarticulação
entre os ministérios do país. Segundo Sabine, é preciso concretizar e
operacionalizar as obrigações ambientais de cada um dos estados-membros do
Acordo de Paris. Para ela, todos os países precisam formular contribuições,
redigir suas próprias metas e comunicá-las devidamente.
— A União Europeia levou muito a sério essas metas
internacionais e emitiu suas próprias obrigações para redução de emissão de CO2
para a próxima década. Eles pretendem, inclusive, fazer uma redução de 40% em
comparação com [o acordo de] 1990 – afirmou.
Já a professora da Universidade de Freiburg Cathrin
Zengerling elogiou o seminário, afirmando que o evento é uma grande
oportunidade para tratar do tema ambiental. Ela discutiu a influência do
comércio internacional sobre o meio ambiente, explicando que toda a cadeia de
produção e transporte desses bens explora e influi nos ecossistemas. Ao
observar que o direito ambiental tem sido visto como uma espécie de barreira
para o comércio, a especialista defendeu que essa parte do direito é
fundamental para proteger o meio ambiente.
Cathrin citou um grande número de acordos de livre comércio
e capítulos de tratados, inclusive no âmbito da União Europeia que, segundo
ela, adicionam anualmente esses interesses ambientais. A professora ponderou,
no entanto, que o assunto só terá êxito quando for regulado de maneira
institucionalizada e integrada.
A programação do seminário desta quinta-feira se estenderá
pelo período da tarde, com previsão de término para as 17h.
Fonte: Agência Senado

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