Convidada: Luciah Lopez, da Academia Poética Brasileira, em dois momentos de prosa
Entretenimento
13/07/2021
Por: Mhario Lincoln
Fonte: Luciah Lopez
DOIS MOMENTOS DE LUCIAH LOPEZ EM PROSA
Luciah Lopez
Em Paz
A paz é profunda e contrária ao nosso destino assustado e tolhido pelas paixões humanas. Somos o silêncio abissal que não sorri ante o convite do olhar pentassílabo -, temos a mão que recusa a calosidade e o afago. Somos a ave que recusa o voo nidificando entre as pedras de sal, adormece na algidez da solidão. Somos trinta peixes - trinta destinos e a unidade divina que navega a ideia do incompleto. Somos o pivô da discórdia, a urgência da dor e a manifestação da ilusão e mesmo que a eternidade nos absolva, ainda assim carregaremos todos os nossos pecados e de mão dadas permaneceremos no silêncio reverenciando a morte um do outro, até que a paz seja conosco.
O meu tio Saul
Era tão bom quando eu me sentava ao seu lado para ouvir as suas histórias -, mesmo as mais loucas histórias que um ser humano é capaz de inventar. Eu ficava em silêncio por alguns minutos enquanto ele, acocorado, sempre com o olhar perdido no vazio entre a cidade e aquela casa. Aquela varanda alta, aquele chão vermelho, o cachorro deitado aos seus pés, a fumaça do cigarro entre os dedos amarelados e a mão apoiada no joelho -, era naquele espaço de silêncio que ele vivia as suas experiências sem prestar contas à realidade. Com a sua voz grave, ele me contava fatos que a minha inocência não era capaz de assimilar e muitas vezes, ele segurava a minha mão com o seu jeito peculiar e apontava com o meu dedo indicador, um ponto entre o céu e a terra dizendo: É pra lá que eles foram!-, eu olhava atentamente contudo, sem perguntar - Quem foi pra lá?! Quem?!-, na verdade eu sentia medo de perguntar qualquer coisa e então me dispunha a ouvir. De repente ele sorria e me perguntava se eu queria um doce ou um passeio no viveiro de mudas que ficava do outro lado da rua. Eu sempre respondia a mesma coisa - primeiro o passeio e depois o doce! De mãos dadas, atravessávamos a rua mergulhando num mundo de flores, mudas de árvores ornamentais e frutíferas as quais ele conhecia pelo nome científico. Além das flores, tinha os aninais - coelhos angorá, porquinhos da índia, gansos e patos. Os pequenos micos com seus olhos espertos, preás, cotias, jabutis, um lagarto que comia ovo, e um grande viveiro de pequenos pássaros e barulhentas araras. Ficávamos por longas horas passeando a sombra do arvoredo. Muitas das vezes, era estação das frutas e eu me deliciava com carambolas, mexericas, romãs, pitangas, jabuticabas, isso tudo, antes dos tais doces que eu não esquecia. Antes de ir embora, era a vez dos peixes ornamentais nos grandes aquários e os alevinos nos taques cobertos com uma tela fina para evitar que as garças fizessem um banquete a céu aberto. Depois do nosso passeio ecológico, ele segurava a minha mão e, caminhávamos em silêncio até a rua de cima, onde ele comprava os doces: canudinhos com doce de leite e banana kasutera os meus prediletos (ainda gosto!!) De volta à casa da minha avó, eu me sentava na varanda e ele voltava a sua posição anterior - acocorado junto a parede do quarto. Felizes em nossa cumplicidade, abríamos os saquinhos de papel pardo e nos entregávamos aos doces e risadas. Existe um mundo misterioso diante do qual os covardes se apavoram, um mundo que o meu tio Saul conhecia tão bem, que soube como entrar, mas nunca soube como sair.

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