Dom João Justino de Medeiros Silva - Arcebispo Metropolitano de Montes Claros – MG
Ao pensar a educação no contexto brasileiro não se pode
ignorar a questão da desigualdade social que entre nós é estrutural. A
sociedade brasileira é radicalmente desigual. É raro um setor da vida que não
tenha a marca das desigualdades. Ela está evidente no acesso à saúde, à
educação, à justiça, na distribuição da terra, na organização do espaço urbano,
nas chances profissionais e na remuneração do trabalho. Não se pode confundir,
todavia, desigualdade social com diversidade e com individualidade. Cada pessoa
é única. A desigualdade social, por sua vez, se verifica quando um indivíduo
tem acesso a boa escola e condições materiais de estudo em detrimento de outro,
ferindo a sua dignidade e lhe roubando o direito à educação.
Como observa o professor Renato Janine Ribeiro, duas
perguntas são essenciais e, portanto, inseparáveis quando se trata de tomar
medidas para a educação. A primeira é: a medida em questão contribui para
melhorar o aprendizado? O foco deve estar sempre no aluno: ele vai aprender
melhor? A outra pergunta é tão decisiva quanto a anterior: a medida em questão
reduz a desigualdade social?
Num país como o nosso, essas duas questões são
fundamentais. Elas conseguem incluir a dimensão pedagógica e política do ato
educativo. Um dos principais resultados que se espera dos investimentos em
educação é o desenvolvimento do país e a sua transformação, incluindo o aumento
da produção e maior equidade na distribuição das riquezas. Este critério de
superação da desigualdade está em clara sintonia com o projeto de Educação para
o Humanismo Solidário, proposto pela Congregação para a Educação Católica, em
comunhão com o magistério de São Paulo VI e do Papa Francisco, que apresenta,
entre suas diretrizes, a promoção da cultura do diálogo e da inclusão social.
Sabe-se que a inclusão social faz parte do processo de
superação da desigualdade, mas não é tudo. Como afirma o texto “Pensando o
Brasil: Educação”, publicado em 2017 pela CNBB, “a inclusão social passa também
pela inclusão formal no sistema educacional, ou seja, pela matrícula dos
estudantes e o avanço no fluxo de escolarização. Essa importante forma de
inclusão, no entanto, não basta. Muito pelo contrário, se esse processo não é
acompanhado de objetivos e estratégias didático-pedagógicas claramente
comprometidas com a qualidade da aprendizagem do estudante (em todos os níveis
de ensino), com metas e avaliações dos resultados obtidos, estaremos
construindo uma perversa exclusão social dentro do sistema educativo. Não
avançar na qualidade da aprendizagem significa comprometer uma efetiva inclusão
desses estudantes na vida social, comprometer o seu direito de atuar, como
protagonistas, no mundo do trabalho, na vida cultural e sociopolítica do seu
país. Não garantir a qualidade da aprendizagem desses estudantes pode
significar, ainda pior, a criação de uma cena de inclusão que, na realidade,
mantém os segmentos mais empobrecidos da sociedade, efetivamente, excluídos,
apesar de formalmente incluídos no sistema escolar”.
Por isso, espera-se que a nova gestão do Ministério da
Educação se empenhe pela construção de um país menos desigual e mais justo. Não
desprezar os avanços já efetivados é um bom primeiro passo.
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