sexta-feira, 20 de março de 2026

O CURTO HORIZONTE DOS GOVERNOS - Acadêmico: José Renato Nalini, membro da Academia Paulista de Letras


O CURTO HORIZONTE DOS GOVERNOS

Acadêmico: José Renato Nalini*

Apesar da urgência do dia a dia, é preciso pensar a longo prazo. O conceito de ‘alfabetização de futuro’ é instigante. O futurismo é o trabalho da imaginação a construir imagens das coisas que ainda vão acontecer. O mundo precisa de líderes que pensem a longo prazo e que não sejam imediatistas como os atuais


O curto horizonte dos governos

A coordenação da vida social é hoje entregue a cidadãos eleitos, que em nome da sociedade, fazem a gestão do interesse comum. O velho modelo doutrinário é o da Democracia, governo do povo, pelo povo e para o povo. Ainda não se desenvolveu um padrão diverso daquele que se apregoa como o ideal: um Estado de Direito de índole democrática.

Na lição inesquecível de Charles de Secondat, Barão de Montesquieu, o poder precisaria se tripartir, para não ser abusivo. O mais relevante recebe a incumbência de legislar. Elabora as “regras do jogo”. Administrar, tarefa do Executivo, é aplicar a lei. Julgar, missão do Judiciário, é aplicar a lei aos conflitos. Todavia, o elemento imprescindível é sempre a lei.

Só que, na prática, não é bem isso o que acontece. A política partidária se converteu numa verdadeira profissão. Não raro, ou melhor, em inúmeros casos, profissão hereditária.

A lei vem a reboque da realidade. O parlamentar não tem condições de antever o que acontecerá e sempre “corre atrás” do prejuízo. Isso é grave quando os ciclos de inovação ocorrem amiúde, cada vez mais rápido e em intervalos que se encurtam a cada momento.

Para ajudar a iniciativa privada a pensar com antecedência, existem profissionais especializados como o jornalista Gonçalo Júnior noticia, ao entrevistar Mônica Magalhães. Ela tem a missão de imaginar e de gerar a imaginação dos interessados quanto ao mundo de amanhã. É a missão de quem deve ser provocado e, simultaneamente, provocar.

Apesar da urgência do dia-a-dia, é preciso pensar a longo prazo. O conceito de “alfabetização de futuro” é instigante. Ao ingressar nessa esfera, compartilham-se ensinamentos que vêm do futurismo e do foresight – análise de futuros cenários possíveis.

O exercício da futurologia é arriscado. Mas o futurismo é o trabalho da imaginação a construir imagens das coisas que ainda vão acontecer. O mundo precisa de líderes que pensem a longo prazo e que não sejam imediatistas como os atuais.

Enquanto na vida pessoal há quem tente raciocinar em termos de futuro – “quero estar em tal condição daqui a dez anos...” – na vida empresarial e, principalmente, na vida pública, o pensamento é de curtíssimo prazo. Quase sempre, na gestão estatal, o horizonte das próximas eleições.

Para ajudar o desenvolvimento desse talento de se pensar a longo prazo, já existem tecnologias disponíveis, como a IA – Inteligência Artificial. Ela já ocupa todos os setores e veio para ficar. Existe o risco de perda cognitiva. À proporção que a IA avança, o ser humano pode ficar menos inteligente. Talvez nem todos se deem conta disso. Acostuma-se a delegar funções e atribuições à máquina e, de repente, ela pode nos descartar.

O segredo é usar a tecnologia a favor da humanidade e não bloqueá-la. Até porque, isso é impossível. A ciência prossegue em seu desenvolvimento e ascensão, a despeito de quaisquer barreiras humanas postas em seu caminho.

A IA não vai substituir o ser humano. Vai substituir – e com vantagens – as suas tarefas. A receita é se qualificar, se capacitar para o trabalho com a IA. Sem isso, a possibilidade do descarte humano é muito maior.

Para Mônica Magalhães, caminha-se hoje em direção a uma IA mais física, no formato de dispositivos, braços mecânicos, humanoides, carros autônomos, tudo o que permite auxiliar o trabalho braçal. O futuro começa na ficção científica e sempre existe alguém que queira experimentar a fabricação de algo que ela propôs.

Os “early adopters” (adotantes iniciais) são os profissionais que se inspiram na ficção para criar produtos. Assim surgiram os humanoides, cada dia mais presentes na vida humana e até no seio do lar familiar.

O Brasil tem ainda uma educação claudicante, principalmente no Ensino Médio. É urgente incentivar a juventude a ser criativa, a gostar de matemática, física, química, biologia, botânica, além de dominar o mundo virtual. O profissional de TIC – Tecnologia de Informação e de Comunicação é aquele que melhores condições tem de inovar, de criar, de gerar algo insólito e que atenda a uma demanda em aberto.

Motivar a infância e a juventude a serem criativas, estimular com incentivos e prêmios os que proponham coisas inovadoras, talvez converta a sociedade brasileira, sempre expectante de um futuro mais risonho, a ser reivindicativa, participativa e atuante, para que o horizonte dos governos ganhe dimensão e não se contente com o mínimo e com a mediocridade.

José Renato Nalini é membro da Academia Paulista de Letras

Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 18 03 2026


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