As calçadas da avenida (série memórias)
Por: Carmen Novoa
Em: 15 de abril de 2026
Em 1866, Friedrich Nietzche profetizou que os habitantes modernos das cidades do futuro teriam necessidade de um espaço urbano no qual pudessem encontrar-se de novo com eles mesmos. Com esse pensamento, dias passados, num sábado à noite percorri a Avenida. A Avenida a que me refiro, para as novíssimas gerações é a Eduardo Ribeiro. Para nós da geração anterior, era apenas a Avenida. Com letra maiúscula. E tinha caráter de monumento. Era substantivo comum, mas pela força de sentimentos simples e dignos adquiriu identidade própria, anulando o nome do homenageado. Era a Avenida, por antonomásia. Sim, percorri dias atrás, à noite a Avenida Eduardo Ribeiro e o que vi foi algo aviltante. Desde o “roadway” passando pelo Relógio Municipal, Catedral de N. S. da Conceição, e por casas que contam histórias como a que a C&A e lojas Marisa recuperaram e a que o Carrefour manteve as arquitetônicas linhas, todas as calçadas foram roubadas do cidadão manauense. Afrontando e jogando no lixo o código de posturas do município. Falo das bancas de camelôs. À noite dispostas uma ao lado da outra embrulhadas em lona de cor única arrancaram a visão dos prédios, deixando uma paisagem semelhante a de um acampamento bélico após uma batalha campal: Fileiras silenciosas, mas desordenadas qual exército de Pancho Villa, sem regras, sem deveres, sem impostos, sem rubores. É certo que em Manaus, com seu um milhão e meio de habitantes, necessita de uma política pública eficaz para sanar esse cancro social. Sinalizam ser a carência de empregos o motivo desse caráter do comércio de informalidade. No entanto arrogam para si o direito de desprezar um local condigno (antigo Armazéns de J. G. Araújo) em que seriam alocados com todo o conforto de área central e privilegiada. Assim as barracas vicejam e proliferam dia após dia. Ali barraquinhas de Bangladesh, aqui tendas só aceitáveis em locais praianos, nunca no asfalto, onde o churrasquinho, fumaça, gordura, comilanças e um “gato” puxando energia elétrica fazem a festa do exército do apocalipse. Invadem o meu e o teu território, as calçadas do cidadão, com a arrogância dos que se sentem protegidos por algum ser supremo o que o legitimo manauense deve temer por mais ignoto que seja.
Urge revigorar o centro. Suas calçadas primeiramente. Como direito inalienável de urbanidade do século XXI. Calçadas livres e desimpedidas para a circulação e usufruto dos pedestres manauenses ou não. Para isso elas foram feitas. A cidade de Manaus em que vivemos, deve ter seu tempo passado, presente e futuro alicerçado acima de tudo no respeito ao chão e à civilidade. Luis Cernuda, escritor espanhol intitulou um de seus famosos escritos de “Antes que o tempo morra em nosso braços.” Lembro então das calçadas da Avenida de há poucos anos debruada de benjamins como um “boulevard”. E nós cidadãos comuns descendo e subindo a Avenida a pé e devagar, sem sobressaltos, em suas calçadas de pedra de Liós. Levávamos apenas o sorriso, a graça e um enorme sol escondido nas mãos. A Avenida era o Alfa e o Ômega. O corpo e a alma. O ar dos pulmões. O principio e o fim de nossas historias de vida. Justamente aquilo que Nietzche se referiu. Ela hoje encontra-se enxague em nossos braços. Seu gênesis feito de sóis de cidade-sorriso fenece. Paira sobre a Avenida o império anárquico e impiedoso de Leviatã.
CARMEN NOVOA SILVA, é Teóloga e membro da Academia Amazonense de Letras e da Academia Marial do Santuário Nacional de Aparecida-SP
Publicado ontem (15 / 04 / 2026) no Jornal do Commércio do Amazonas

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