terça-feira, 28 de abril de 2026

Flávio Dino pergunta como punir a corrupção na Justiça O país quer saber se a regra vale para todos - artigo do jornalista Felipe Vieira


Flávio Dino pergunta como punir a corrupção na Justiça

O país quer saber se a regra vale para todos.

Felipe Vieira*

27/04/2026

O ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino publicou um artigo com um título forte: “Como punir a corrupção na Justiça?”

No texto, defende penas mais duras para magistrados, procuradores, advogados públicos e privados envolvidos em esquemas de corrupção. Fala em perda rápida de cargo, responsabilização criminal e necessidade de proteger a credibilidade do sistema judicial.

No papel, o discurso é duro.

Na prática, ele surge em um momento delicado para o próprio Judiciário brasileiro.

Nos últimos meses, reportagens e denúncias colocaram sob debate público situações envolvendo pessoas próximas a ministros do Supremo.

Alexandre de Moraes virou alvo de questionamentos após reportagens sobre contratos milionários envolvendo o escritório de advocacia ligado à sua esposa e instituições financeiras.

Dias Toffoli também apareceu no noticiário após revelações sobre relações de pessoas próximas e episódios ligados ao resort de luxo em Mangaratiba.

Nenhum dos casos resultou em condenação. Os ministros negam irregularidades ou evitam comentar publicamente detalhes das acusações.

E é justamente aí que mora o problema central.

O Brasil vive uma crise de confiança institucional. Quando ministros defendem rigor contra corrupção, a sociedade naturalmente passa a exigir o mesmo padrão dentro do topo do próprio sistema.

O discurso perde força quando parece mirar apenas juízes de primeira instância, procuradores ou operadores menores enquanto suspeitas envolvendo figuras poderosas seguem cercadas de silêncio.

A pergunta feita por Dino é correta.

Talvez falte apenas complementá-la:

como punir a corrupção na Justiça quando as suspeitas alcançam também os andares mais altos do poder?

Sem essa resposta, qualquer discurso moralizador corre o risco de parecer seletivo.

E seletividade é uma das formas mais rápidas de destruir a credibilidade de qualquer instituição.

*Felipe Vieira é jornalista


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