O coronelismo atualizado
Roberto Kenard
Gilmar Mendes, que há muito é o homem que faz o papel de maestro do STF, em entrevista após bate-boca com o ex-governador de Minas Gerais, Zema, decidiu dar entrevistas sobre o ocorrido, já que diz gostar de ser desafiado.
A só manifestação de um ministro da mais alta Corte do país, em um debate de beira de esquina, já diz tudo sobre nossa posição como país de décima categoria. A imagem do país é a cópia fiel de suas autoridades.
Os tagarelas, sabemos, quanto mais abrem o bico mais mostram quem verdadeiramente são e pensam. Com Gilmar Mendes não seria diferente.
Numa das entrevistas, a do Jornal da Globo, ele disse que o governador Zema recorreu ao STF quando decidiu não pagar a dívida com a União e que com isso governou com uma liminar. E arrematou: era o mesmo Zema que agora critica o STF.
Quando lutei contra a ditadura militar, correndo risco de vida, jamais imaginei que aquela luta daria num país vergonhoso. Um país indigno da democracia. Porque é isso que representa a fala de Gilmar Mendes.
O que está explícito nessa declaração: o STF não julga questões de políticos a partir das leis, mas para receber apoio futuro, ainda (ou sobretudo) quando o STF estiver sendo criticado. Não seriam então decisões, mas barganhas? É a visão que atualiza as velhas práticas do coronelismo: uma mão lava a outra.
Acontece que ninguém que tenha uma ação favorável em qualquer corte estará, a partir daí, nas mãos da corte ou de um dos juízes. A não ser que a decisão tenha sido realizada por compadrio ou coisa pior.
O bate-boca, ainda por cima, prova que a maioria dos que estão no STF acredita-se acima de críticas (o que significa estar acima das leis). Criticá-los é desprezar a democracia. Criticá-los é ser contra a existência do STF.
Só que até os meios de comunicação, há muito transformados em meios de desinformação, já se rebelam contra essa farsa. Se nas democracias reais nem o presidente da República está protegido de críticas, por que aqui os ministros do STF o estariam? São reis-deuses?
A questão é que a república (assim, em minúsculas) está em frangalhos. Não há uma única instituição em pé. O brasileiro de todas as classes não acredita nelas e em ninguém. E isso nos torna vulneráveis como Nação. A insegurança, em todos os níveis, vira o normal.
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