sexta-feira, 17 de abril de 2026

Geologia não é destino - Artigo de David Gertner


Geologia não é destino

16/04/2026

David Gertner*

Um artigo recente de Drew Crawford, publicado na rede X, chamou atenção ao apresentar o Brasil como uma das grandes apostas estratégicas do século XXI. A provocação é poderosa: como um país com tamanha abundância de água doce, energia limpa, capacidade agrícola e minerais críticos continua sendo tratado com desconto pelos mercados globais? A pergunta é pertinente. Mas a resposta exige ir além do fascínio fácil pelos ativos naturais (CRAWFORD, 2026).

O Brasil talvez seja hoje um dos maiores paradoxos estratégicos do nosso tempo. Concentramos cerca de 12% da água doce superficial do planeta, temos uma matriz elétrica entre as mais limpas do mundo, lideramos globalmente em nióbio, reunimos reservas estratégicas de grafita, níquel, lítio e terras raras, somos uma potência na produção e exportação de alimentos e, ainda assim, seguimos negociando na bolsa com múltiplos significativamente inferiores aos dos Estados Unidos.

A pergunta implícita é simples e devastadora: como um país com tamanha abundância estratégica pode continuar sendo tratado com tamanho desconto?

A resposta passa por abandonar a sedução dos slogans e enfrentar uma verdade menos confortável. O mercado não precifica o que um país tem; precifica o que ele consegue transformar em valor recorrente, previsível, escalável e institucionalmente protegido. É precisamente nesse ponto que a geologia brasileira encontra o limite da nossa história.

O século XXI devolveu centralidade a quatro ativos que o Brasil possui em escala rara: água, energia limpa, segurança alimentar e minerais críticos. Em um mundo marcado pela transição energética, pela eletrificação industrial, pela disputa por cadeias de suprimento e pela geopolítica dos insumos estratégicos, poucos países chegam a este momento tão bem posicionados. Nossa matriz elétrica, impulsionada por hidrelétricas, eólica, solar e biomassa, permanece entre as mais limpas do planeta. Ao mesmo tempo, o país detém reservas gigantescas de nióbio, grafita, níquel, lítio e terras raras — justamente os materiais que sustentam baterias, turbinas, redes elétricas, chips, defesa, mobilidade elétrica e inteligência artificial.

Some-se a isso um ativo frequentemente subestimado: o Brasil é uma das maiores potências agrícolas do mundo, líder global em soja, café, açúcar, suco de laranja, proteína animal e diversos grãos, além de desempenhar papel central na segurança alimentar de centenas de milhões de pessoas. Em um século em que clima, água e cadeias globais de suprimento tornam a produção de alimentos ainda mais estratégica, essa posição adquire peso geopolítico crescente. Sob a lógica material do novo século, o Brasil deveria ocupar uma posição privilegiada.

Mas abundância não é sinônimo de prosperidade. A distância entre as duas coisas chama-se instituição.

O desconto brasileiro não nasce da ausência de ativos, mas da dúvida persistente sobre a nossa capacidade histórica de converter recursos em cadeias sofisticadas de valor agregado. O investidor global não compra apenas minério ou produção agrícola. Compra previsibilidade regulatória, segurança jurídica, estabilidade fiscal, infraestrutura, governança, proteção cambial, profundidade de mercado, continuidade de políticas públicas, capacidade de inovação e retenção doméstica de tecnologia. É aqui que os múltiplos se separam.

Os Estados Unidos negociam com prêmio porque concentram empresas que vendem propriedade intelectual, software, semicondutores, cloud, biotecnologia, defesa, plataformas digitais e marcas globais com margens extraordinárias. O Brasil, por sua vez, continua excessivamente dependente de bancos, utilities, petróleo, mineração, proteína, papel e commodities. Não se trata de uma injustiça do mercado, mas de uma leitura dura — e, em grande medida, coerente — da nossa incapacidade histórica de subir integralmente a escada do valor.

Exportamos minério e importamos ligas avançadas. Exportamos grafita e importamos baterias. Exportamos lítio e importamos parte relevante da inteligência industrial da transição energética. Exportamos alimentos em escala global e importamos boa parte da tecnologia, dos fertilizantes, da genética avançada, dos defensivos e do maquinário de maior sofisticação. A riqueza nasce aqui; o valor agregado, muitas vezes, amadurece fora daqui.

Este é o verdadeiro sentido do desconto.

O Brasil não sofre por falta de potencial. Sofre por uma longa tradição de capturar renda na extração e perder poder na transformação. Por isso, a frase mais importante para pensar o país talvez seja a mais simples: geologia não é destino.

Recursos oferecem oportunidade. Nunca garantiram futuro. O mercado sabe distinguir entre países que apenas extraem riqueza e aqueles capazes de reter tecnologia, manufatura, conhecimento, escala industrial e poder estratégico.

Ainda assim, há aqui uma oportunidade histórica rara. Se o país conseguir articular estabilidade regulatória, responsabilidade fiscal, infraestrutura logística, política industrial focada em minerais críticos, bioeconomia, energia, tecnologia agrícola e manufatura avançada, o chamado desconto Brasil pode diminuir de forma estrutural ao longo da próxima década.

O mundo caminha para uma era em que água, energia limpa, alimentos e minerais estratégicos voltarão ao centro da geopolítica global. Poucos países chegam a essa disputa tão bem equipados.

A pergunta real nunca foi sobre o que o Brasil possui. A pergunta é outra, mais profunda e mais incômoda: seremos finalmente capazes de transformar abundância em futuro?

Ou, dito de forma ainda mais direta: o Brasil não precisa descobrir novas riquezas. Precisa apenas aprender, enfim, a merecer as que já tem.

Fonte de inspiração: CRAWFORD, Drew. The Case for Brazil: The Greatest Asymmetric Bet on Earth. X, 26 mar. 2026. Publicação de @drewcrawford_. Acesso em 11 abr. 2026.

*David Gertner, Ph.D. nasceu no Brasil e vive nos Estados Unidos há mais de três décadas. Doutor pela Northwestern University, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, prepara o lançamento de dois novos livros ainda este ano. Escreve sobre democracia, memória, ética, tecnologia, identidade e a condição humana.
www.davidgertner.com


 

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