Ainda é possível governar o Brasil?
Por: Breno Rodrigo*
Em: 21 de maio de 2026
A democracia brasileira passa por uma das mais severas transformações em sua história recente. A “esperança equilibrista” que norteou o enorme engajamento popular ao longo da festa da redemocratização converteu-se, nos últimas anos, em pessimismo cívico generalizado.
As promessas inseridas no texto da “Constituição Cidadã” não demoveram a crise social, as desigualdades atávicas e a putrefação do modelo educacional. Na prática, as elites comprometeram-se apenas com seus privilégios ― travestidos em direitos adquiridos ― em burocracias insuladas no aparato estatal.
Na percepção dos estratos mais pobres, as elites pensam apenas em seus interesses especiais e o povo precisa se virar num tipo de capitalismo popular orientado pelo empreendedorismo, pelo esforço individual e pela livre iniciativa sem controle tributário.
Ao lado de tudo isso, a política nacional na última década acentuou três vetores de crise.
O primeiro vetor de crise é identificado com o problema da legitimidade. A Nova República nasceu sob o signo da conciliação. A transição democrática brasileira não foi resultado de ruptura revolucionária, mas de um complexo pacto de acomodação entre elites civis, setores militares e forças políticas emergentes. A estabilidade institucional tornou-se, portanto, o principal objetivo do novo regime. Vale dizer, todavia, a estabilidade não produziu necessariamente legitimidade substantiva.
Ao longo das décadas, consolidou-se no imaginário popular a percepção de que a democracia brasileira garantiu direitos formais às maiorias, mas preservou os privilégios materiais das minorias incrustadas na máquina estatal. O cidadão comum vota, participa e trabalha; contudo, percebe que o Estado continua capturado por corporações, oligarquias partidárias e grupos burocráticos relativamente impermeáveis às pressões sociais. A conclusão óbvia foi a erosão gradual da confiança pública nas ditas “instituições”.
Há tempos, os partidos perderam densidade ideológica — se é que um dia tiveram. Os sindicatos perderam capacidade de mobilização dos trabalhadores. A imprensa perdeu o monopólio da mediação narrativa para as redes sociais. As universidades perderam autoridade simbólica diante da ascensão das redes digitais e de seus ativistas. E o próprio Estado perdeu a capacidade de produzir expectativas coletivas de futuro.
A retórica do antipetismo, as ascensão do bolsonarismo e mesmo das manifestações difusas de junho de 2013 expressam, cada uma a seu modo, a crise de legitimidade do sistema político. Não se trata apenas da rejeição a governos específicos, mas da corrosão da crença na instituições políticas enquanto mecanismo efetivo de transformação social. O eleitor brasileiro parece cada vez menos interessado em projetos nacionais duradouros e mais inclinado a demandas imediatas, identitárias ou moralizantes. A política converte-se, assim, em linguagem afetiva de ressentimentos insolúveis.
O segundo vetor de crise diz respeito à deformação prática do regime de separação de poderes. A Constituição de 1988 ampliou significativamente as competências institucionais do Judiciário e do Ministério Público. A intenção era impedir recaídas autoritárias e fortalecer mecanismos de controle. Contudo, o resultado histórico foi a progressiva judicialização da política e a politização do judiciário.
O Supremo Tribunal Federal deixou de ser apenas uma corte recursal e passou a ocupar função moderadora informal do regime político. Em muitos momentos, atua simultaneamente como intérprete constitucional, árbitro político e agente de estabilização institucional. Algo absolutamente inimaginável em qualquer regime democrático.
O Legislativo, por sua vez, tornou-se crescentemente fragmentado e faccionado. O presidencialismo de coalizão transformou-se numa engenharia permanente de sobrevivência parlamentar, baseada menos em programas de governo do que na distribuição de recursos, cargos e influência orçamentária.
Já o Executivo perdeu capacidade coordenadora. Governar o Brasil tornou-se administrar vetos cruzados entre corporações públicas, grupos econômicos, partidos fisiológicos, tribunais superiores e pressões digitais ou midiáticas instantâneas. O presidente da República permanece formalmente poderoso, mas materialmente limitado por múltiplos centros de veto em múltiplas arenas decisórias.
Forma-se, assim, um paradoxo institucional: todos possuem instrumentos para bloquear decisões, mas poucos conseguem construir consensos robustos. A hipertrofia institucional produz imobilismos contínuos.
O terceiro vetor de crise é a transformação da polarização em método permanente de mobilização política. Em democracias contemporâneas, divergências ideológicas são naturais. O problema brasileiro reside no fato de que a polarização sistêmica deixou de ser instrumento eleitoral episódico e passou a organizar identidades sociais inteiras.
O adversário converteu-se em inimigo moral. As redes sociais intensificaram esse processo ao transformar indignação em capital político instantâneo. O debate público tornou-se emocionalmente acelerado, fragmentado e permanentemente conflitivo. A lógica algorítmica privilegia escândalo, radicalização e simplificação.
Nesse ambiente, a moderação parece fraqueza. A política perde densidade programática e ganha teatralidade performática. Lideranças precisam mobilizar emoções fortes para sobreviver em ciclos contínuos de atenção digital. O resultado é um sistema incapaz de produzir pacificação mínima.
O Brasil transforma-se numa sociedade de desconfianças recíprocas.
Ainda é possível governar?
A grande questão nacional talvez não seja apenas quem governa, mas se ainda existem condições estruturais para governabilidade consistente. Os líderes das pesquisas — Lula e Flávio — estão tecnicamente empatados na aprovação e na rejeição. Isto significa dizer que o próximo eleito, um ou outro, terá enorme dificuldade de coordenar uma agenda de governo minimamente vitoriosa. A polarização atuará como uma força imobilizante para o próximo chefe de governo.
Governar o Brasil exigirá mais do que habilidade gerencial. Exigirá reconstrução gradual da legitimidade institucional, redefinição dos limites entre os poderes e recuperação da capacidade de formular consensos.
Sem isso, permaneceremos presos a uma democracia realmente existente, porém socialmente exausta — uma democracia que vota muito, discute intensamente e transforma o pouco em conflito.
*é cientista político
Breno Rodrigo é cientista político e professor de política internacional do diplô MANAUS. E-mail: diplomanaus@gmail.com
Jornal do Commercio AM,

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