terça-feira, 19 de maio de 2026

Meu pai, escravo - Artigo de Carlos Silva


Meu pai, escravo

Por Carlos Silva*

Em: 19 de maio de 2026

Durante este mês de maio, que está finalizando, participei de algumas atividades culturais e artísticas, lembrando, que ambos termos nem sempre são sinônimos. Refleti sobre algumas comemorações a respeito do 13 de maio e a Abolição da Escravatura. Mas, como eu penso sobre tal data, e tal época, e suas consequências e repercussões? Meu pai foi registrado em 1930. Nasceu escravo em algum lugar no sertão da Paraíba. Os antecedentes deles vieram trazidos da Mãe África, à força, com extrema violência. O pior é que meus bisavós paternos já eram escravos de outros negros em terras, hoje conhecidas como Luanda e adjacências. Qualquer guri que tenha estudado História irá entender que a dinâmica do mercado, ao longo dos séculos XV em diante, na colônia portuguesa da América, era baseada no trabalho da mão-de-obra negra. Sim, sabemos que escravos sempre existiram. E não era pela cor da pele e, sim, pela falta de força contra os opressores, e, como exemplo, as civilizações romanas e  egípcias. Mas, por mais de 300 anos, para os senhores de engenho, cafeicultores, proprietários de minas de ouro e em todas as formas de enriquecimento, a base era o braço escravo. Naquele período, essa amaldiçoada forma de se fazer economia era aceita pelas sociedades, pela Igreja Católica, pelo poder. Ou seja, era o status quo. Então, por pressão de determinada potência europeia, decidiu-se, com apenas uma penada, acabar com a maldição. Lembrando que a tal potência não tinha as veias de civilização humana e, sim, buscava ampliar a quantidade de consumidores de seus produtos. Pergunte a um aborígene australiano o que a oralidade deles fala dessa potência. No entanto, era para ter terminado em 1888. E não foi assim. De fato, como aqui na nossa terrinha temos as nossas formas de fazer as coisas, em 1930 meus avós paternos e meu pai eram, ainda, escravos. E devem ter muitos casos assim hoje em dia, com certeza. Como não existe limite para a maldade humana, me julgo no direito de não perdoar. Tudo bem que houve a miscigenação. E isso foi e é excelente. Mas, a chaga continua. E não é com palestrinhas e bandeirinhas sociais que vamos apagar o passado. A dor continua. Não em todos, mas continua viva, sim. Mas, em respeito a todos os meus antepassados paternos, eu sobrevivi e os honro, com orgulho. Afinal, eu não pedi para nascer negro, apenas tive sorte!

*Carlos Alberto da Silva é Coronel do Exército, na Reserva, professor universitário, graduado em Administração e mestre em Ciências Militares


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