O Desafio de Encontrar a Saída
David Gertner*
Há momentos em que a liberdade formal permanece intacta, mas as portas disponíveis continuam levando ao mesmo impasse.
21/05/2026
“Quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos ” — Viktor Frankl
Há momentos em que a pergunta já não é “qual caminho seguir”, mas se ainda existe, de fato, algum caminho.
“A Saída? Onde Fica a Saída?” (1967), peça de Oduvaldo Vianna Filho, sobre o impasse existencial e político de uma geração, ecoa muito além do teatro. Ela atravessa a vida real, silenciosamente, nos instantes em que nos vemos cercados por circunstâncias que não oferecem uma escolha verdadeira — apenas variações do mesmo labirinto.
A ideia de saída sugere movimento, alívio e libertação. Mas, para muitos, em muitos contextos, a saída não está visível. E, às vezes, nem sequer está disponível.
Para quem vive na pobreza, a saída raramente é uma decisão individual. É uma equação complexa de oportunidades ausentes, educação precária e estruturas desiguais. Fala-se em esforço, mérito, superação — mas frequentemente se ignora o quanto o ponto de partida limita o horizonte de chegada.
Em relações abusivas, a saída pode existir, mas vem cercada de medo, dependência emocional, vergonha e insegurança financeira. Dizer “basta sair” é ignorar as correntes invisíveis que mantêm alguém preso muito além do que se vê. A pessoa olha para a porta, sabe que ela existe, mas não sabe como pagará o aluguel no mês seguinte. A saída está ali — mas cobra um preço que, naquele momento, ela não pode pagar.
No trabalho, muitos permanecem em ambientes tóxicos não por escolha, mas por necessidade. Contas a pagar, responsabilidades familiares, ausência de alternativas. Nesses casos, sair não é apenas uma decisão — é um risco.
Em contextos de opressão política ou social, a própria ideia de saída pode ser ilusória. Quando o sistema limita as possibilidades, resistir custa caro — e fugir nem sempre é possível.
Em escala diferente, o drama é o mesmo: a porta existe, mas as condições concretas de atravessá-la permanecem insuficientes.
Em democracias fragilizadas, a ideia de saída assume uma forma ainda mais inquietante: a eleição.
Em teoria, votar é a grande porta de renovação pacífica da vida pública. É o momento em que a sociedade corrige rumos, substitui lideranças e reabre horizontes.
Mas há momentos em que o eleitor se vê diante de candidatos viáveis que não reúnem a competência desejada, cujo perfil ético desperta dúvidas, cujas promessas parecem sabidamente inexequíveis e cuja capacidade de planejar, administrar e servir ao interesse público é incerta.
A saída institucional existe.
A urna está ali.
O ritual democrático permanece intacto.
E, ainda assim, a sensação coletiva é de confinamento.
A liberdade formal permanece, mas a experiência subjetiva é de ausência de escolha real.
Escolhe-se não entre o ideal e o possível, mas entre alternativas que parecem versões diferentes do mesmo impasse: conflitos de interesse mal resolvidos, discursos moldados mais pela conveniência do momento do que pela verdade, projetos sem lastro administrativo, retóricas maximalistas incapazes de sobreviver ao primeiro encontro com a realidade.
Nesses momentos, a democracia preserva a forma da saída, mas ameaça perder sua substância.
O eleitor não procura perfeição. Procura direção, honestidade intelectual, capacidade de governo e compromisso com o país para além do ciclo eleitoral.
Quando isso não está presente, a escolha deixa de soar como esperança e passa a ser percebida como mera sobrevivência política.
A pergunta deixa então de ser apenas “quem escolher?” e se torna mais profunda e perturbadora: como encontrar uma saída quando as portas disponíveis parecem conduzir ao mesmo corredor?
Nas guerras, a saída pode significar abandonar tudo: casa, história, identidade. E, ainda assim, não há garantia de chegada — apenas a troca de um risco por outro.
Mesmo em situações mais silenciosas, como a depressão ou a doença, a pergunta permanece. Há dias em que sair da cama já parece uma vitória. Falar em “encontrar uma saída” pode soar, para muitos, como uma linguagem distante da realidade vivida.
E há ainda as prisões menos visíveis: expectativas sociais, padrões de sucesso, comparações constantes, a pressão por uma vida que nem sempre é desejada, mas é esperada. Quantas pessoas vivem trajetórias que não escolheram — e não sabem como abandoná-las?
Talvez este seja o erro central: tratar a saída como simples decisão, quando, para muitos, ela é um privilégio.
A maior injustiça não é a falta de saída — é fingir que ela existe para todos.
Isso não significa que não existam saídas. Significa reconhecer que elas não são iguais para todos.
Há quem precise de ajuda para encontrá-las.
Há quem precise de tempo para construí-las.
E há quem, por longos períodos, precise apenas resistir.
Talvez a pergunta mais honesta não seja “por que não saem?”, mas “o que impede a saída?”. Essa mudança de perspectiva transforma julgamento em compreensão — e indiferença em responsabilidade.
Em muitos casos, a saída não vem como um gesto grandioso, mas como pequenos deslocamentos: pedir ajuda, dizer não, reconhecer um limite, dar um passo mínimo em outra direção. Nem sempre é visível de fora. Nem sempre é linear.
E há situações em que a saída não é escapar, mas transformar — o contexto, a relação, a si mesmo.
Uma sociedade não se mede pela facilidade com que alguns encontram suas saídas, mas pela capacidade de ampliar as saídas possíveis para todos.
Porque, no fim, o verdadeiro desafio não é apenas encontrar a saída, mas construir uma sociedade em que ela deixe de ser privilégio, ilusão ou labirinto — e volte a ser horizonte.
*David Gertner, Ph.D., nascido no Brasil e radicado há mais de três décadas nos Estados Unidos, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, escreve sobre ética, memória, identidade, silêncio, tecnologia e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e tem novos livros com lançamento previsto para 2026.

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