sexta-feira, 29 de maio de 2026

O dia em que o hospício fiscal ficou sem clientes - Artigo de Alex Pipkin, PhD em Administração


O dia em que o hospício fiscal ficou sem clientes

Alex Pipkin, PhD em Administração

Durante décadas, a Argentina viveu sob uma das fraudes psicológicas mais sofisticadas já produzidas pela política.

A fraude não era econômica. A economia era apenas a fatura que chegava depois.

O truque consistia em convencer milhões de pessoas de que a única instituição capaz de salvá-las era exatamente a instituição que as tornava dependentes.

Primeiro vinham a inflação, os déficits, os controles de preços, a destruição da moeda, a insegurança econômica e a corrosão silenciosa da capacidade de planejamento das famílias.

Depois surgia o Estado oferecendo proteção contra os estragos que ele próprio havia produzido.

Era o incêndio administrado por um corpo de bombeiros que chegava ao local carregando gasolina.

O peronismo transformou esse mecanismo em cultura nacional. Não vendia apenas políticas públicas. Vendia uma visão de mundo; a crença de que riqueza pode ser distribuída antes de ser produzida, de que prosperidade nasce de decretos e de que o indivíduo é incapaz de caminhar sem a tutela permanente do poder.

Por isso, a grande ruptura promovida por Milei talvez não tenha sido, em sua essência, econômica. Foi psicológica.

Ele compreendeu algo que boa parte dos economistas costuma esquecer. Sociedades raramente abandonam ideias ruins porque encontraram argumentos melhores. Abandonam-nas quando a realidade se torna insuportável.

Milei retirou a maquiagem do cadáver.

Disse ao paciente que a doença não era o mercado, os empresários, o capitalismo, os especuladores ou qualquer outro personagem convocado para ocupar o papel conveniente de vilão.

A doença era o próprio modelo que prometia curá-lo.

O remédio oferecido durante décadas era justamente o veneno que mantinha a enfermidade viva.

Pois chega um momento em que até a mentira mais confortável perde para a verdade mais dolorosa.

O problema é que o Brasil continua perigosamente próximo da fase anterior da experiência argentina.

Também aqui milhões foram ensinados a acreditar que o Estado é simultaneamente o incendiário e o bombeiro, o sequestrador e o negociador do resgate, o problema e a solução.

A diferença é que nossa dependência tornou-se suprapartidária.

À esquerda, aparece como justiça social. À direita, reaparece travestida de fisiologismo, subsídio, protecionismo, emenda parlamentar ou privilégio setorial.

Mudam os discursos. Permanece a devoção.

A principal lição argentina, portanto, não é somente fiscal; é psicológica.

Nenhum país abandona o estatismo quando as contas quebram.

Abandona-o quando a fantasia se desmancha.

Porque toda transformação econômica é precedida por uma transformação moral, o instante em que uma sociedade deixa de procurar um administrador mais eficiente para o hospício e começa a desejar alguém com coragem suficiente para abrir os portões.


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