A terra dos inocentes
Alex Pipkin, PhD em Administração
Quanto mais o Estado cresce, mais o mercado é acusado.
Quanto mais decisões são transferidas para Brasília, mais os fracassos são debitados ao capitalismo verde-amarelo. Quanto mais nos afastamos da livre iniciativa, mais a culpamos pelos resultados desse afastamento.
Essa inversão ultrapassou a fronteira do debate econômico. Tornou-se um caso de psicologia social; para não dizer de pura negação da realidade.
Vivemos repetindo que os problemas nacionais decorrem dos excessos do mercado.
Mas olhe em volta. Convivemos com uma carga tributária sufocante, um labirinto regulatório que transforma o ato de empreender numa prova diária de resistência, um Estado que consome parcelas crescentes da riqueza produzida e uma dívida pública que obriga milhões de brasileiros a financiar, por meio de juros elevados, a incapacidade permanente do governo de gastar apenas o que arrecada.
Ainda assim, o réu permanece o mesmo.
Sempre ele: o mercado.
A pergunta inevitável não é se ele é culpado. É de qual mercado estamos falando.
O empresário continua assumindo riscos, investindo capital, empregando pessoas e respondendo sozinho pelos prejuízos.
Do outro lado da mesa, o Estado avança sobre decisões, dita regras, impõe custos e asfixia a autonomia. O nome do dono continua na fachada. O poder de decidir, entretanto, mudou de endereço.
Em muitos casos, o empreendedor transformou-se num gerente terceirizado da própria audácia.
Quando o crescimento desaparece, a culpa continua sendo do mercado.
Quando a produtividade estagna, a culpa continua sendo do mercado.
Quando a dívida explode, a culpa continua sendo do mercado.
O maior triunfo do coletivismo não foi estatizar empresas. Foi estatizar a mentalidade, convencendo indivíduos livres de que os culpados pelos seus fracassos estão sempre do lado de fora e de que as soluções virão do mesmo lugar que criou os problemas.
É por isso que a pobreza perdeu espaço para a desigualdade.
A pobreza exige prosperidade. A desigualdade exige culpados.
A pobreza exige o óbvio. Exige investimento, produtividade, trabalho duro e criação de riqueza. Já a desigualdade oferece um dividendo político muito mais sedutor; a distribuição gratuita de bodes expiatórios para justificar o fracasso alheio.
Nunca desaparece, nunca fica sem acusados disponíveis e nunca deixa de justificar novas intervenções estatais.
A grande ironia do nosso tempo é que construímos uma sociedade cada vez mais dependente de decisões burocráticas e continuamos cobrando do mercado os resultados dessa dependência.
O mercado tornou-se o réu definitivo desse tribunal kafkiano.
A encenação ideológica prossegue, mas o veredicto de culpado já faz parte do próprio roteiro.

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