A tecnologia do pertencimento
Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial
Nassim Taleb escreveu que dificilmente alguém é convencido por argumentos. Apenas a realidade seria capaz disso.
Talvez isso descrevesse um mundo que já não existe.
Hoje, a realidade já não basta.
Não porque os fatos tenham desaparecido, mas porque surgiu um mecanismo de controle muito mais sofisticado do que a censura; o pertencimento.
Durante séculos, o poder tentou controlar o que as pessoas podiam dizer. Agora basta controlar o grupo ao qual elas desejam pertencer.
Essa é a inovação política mais sofisticada do nosso tempo.
O pertencimento deixou de ser consequência das convicções. Tornou-se o fabricante das convicções.
Primeiro escolhe-se a tribo. Depois é a tribo que passa a definir os limites do pensamento aceitável.
Nesse instante, um fato deixa de ser apenas um fato. Torna-se uma ameaça à identidade, uma vez que discordar já não significa perder uma discussão. Significa arriscar o reconhecimento, os vínculos, as referências e, para muitos, a própria estrutura psicológica que dá sentido à vida.
É por isso que previsões fracassam sem destruir as narrativas que as produziram.
A realidade deixou de corrigir as crenças. São as crenças que passaram a reinterpretar a realidade, até que ela volte a caber na história que a tribo decidiu contar.
Esse é o mecanismo de poder que menos precisa recorrer à coerção. Basta convencer as pessoas de que o preço de questionar a narrativa é o pertencimento.
Poucas estão dispostas a pagar esse preço.
Tento ajudar empresas a rever estratégias, processos e modelos de negócio.
Ao longo desse trabalho, aprendi que as organizações mais frágeis não são aquelas em que as pessoas discordam do líder, mas aquelas em que deixam de discordar. Quando o medo de contrariar substitui a coragem de questionar, a inteligência coletiva cede lugar à conformidade. É nesse momento que decisões ruins passam a parecer consensos.
A inovação começa exatamente quando alguém tem coragem de duvidar daquilo que parecia inquestionável.
A conformidade preserva o pertencimento. A dúvida preserva a liberdade.
As sociedades obedecem à mesma lógica.
Empresas morrem quando deixam de inovar. Sociedades começam a morrer quando deixam de duvidar.

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