O dia em que alugamos a consciência
Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial
Existe uma dependência que não aparece nas estatísticas. Não reduz a renda, não aumenta a inflação nem provoca crises financeiras. Ainda assim, poucas corroem tanto uma sociedade.
É a dependência de não precisar mais julgar.
Durante muito tempo, a lei ocupou um lugar modesto. Existia para limitar a força, conter os impulsos e proteger a convivência. Nunca pretendeu substituir a consciência. A moral dizia por que agir; a lei apenas lembrava até onde era permitido ir.
Em algum momento, porém, essa ordem se inverteu.
A pergunta deixou de ser “isso é justo?” e passou a ser “isso é permitido?”.
Parece apenas uma troca de palavras. Não é. É uma troca de autoridade. A consciência deixou de consultar a lei. Passou a ser substituída por ela.
Essa é uma das fraudes intelectuais mais convenientes do nosso tempo; imaginar que obedecer à lei dispensa o dever de julgar.
Existem inúmeras maneiras legais de agir com covardia, deslealdade ou desonestidade. A legalidade jamais foi certificado de virtude.
Toda capacidade humana que deixa de ser exercitada enfraquece. A memória perde nitidez, os músculos perdem vigor e o pensamento perde independência. A consciência não escapa à mesma regra. Quanto menos julgamos por nós mesmos, mais natural nos parece entregar esse trabalho a alguém disposto a fazê-lo por nós.
É nesse terreno que o paternalismo prospera. Típico de sociedades extrativistas, ele não cresce apenas porque concentra poder, mas porque oferece algo ainda mais sedutor. É o alívio de não precisar decidir. Alguém define, outro obedece, e ambos chamam isso de virtude.
Leis são indispensáveis. Contêm excessos, protegem direitos e tornam possível a vida em comum. Mas nunca produziram caráter.
Sociedades maduras dependem menos da quantidade de normas do que da qualidade moral de seus cidadãos. As instituições mais sólidas são aquelas sustentadas por pessoas capazes de fazer a coisa certa mesmo quando ninguém está olhando.
O contrato mais caro que uma sociedade pode assinar não é econômico nem político. É moral.
Porque o verdadeiro triunfo do paternalismo não é tirar a liberdade dos homens.
É convencê-los de que pensar por conta própria se tornou desnecessário.

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