A tragédia dos idiotas úteis e a física dos balanços
Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial
É compreensível que jovens recém-saídos de universidades, ainda encantados com a descoberta de que boas intenções aparentemente revogam restrições orçamentárias, acreditem que governos possam gastar, distribuir, subsidiar e estimular quase indefinidamente. A juventude também serve para isso.
O espantoso é encontrar economistas consagrados e grandes empresários acreditando na mesma metafísica.
A economia, essa senhora desagradável, possui um defeito de caráter, já que não se comove. Pode-se escrever um manifesto contra os juros, organizar um seminário sobre justiça social, culpar o Banco Central, o mercado ou a conhecida insensibilidade dos números. O balanço continuará fechando do mesmo jeito.
É a física dos balanços.
Durante anos, parte do empresariado brasileiro acreditou que dinheiro caro era uma perversidade fabricada dentro do Banco Central. Roberto Campos Neto tornou-se o vilão perfeito. Bastaria substituí-lo e o crédito voltaria a jorrar pelas torneiras nacionais.
Campos Neto saiu; Gabriel Galípolo entrou. A torneira não jorrou.
A pequena inconveniência chama-se realidade fiscal.
Enquanto Brasília gasta e fabrica despesas permanentes com a serenidade de quem imagina que dinheiro público nasce público, empresas precisam enfrentar uma vulgaridade chamada caixa. E o varejo, dependente de crédito, renda disponível e confiança, costuma descobrir antes dos intelectuais que juros não são uma opinião.
Casas Bahia acaba de anunciar recuperação judicial e o fechamento de cerca de 300 lojas, um terço de sua rede. Magazine Luiza enfrenta prejuízos. Famílias acumulam dívidas e inadimplência recorde. A aritmética, aparentemente, também aderiu à “extrema-direita”.
O mais delicioso, se não fosse tão caro, é assistir à elite empresarial e intelectual que ajudou a vender a fantasia descobrir uma velha crueldade da economia: idiotas úteis também pagam juros.
Eis a tragédia dos idiotas úteis. Foram úteis enquanto ajudavam a vender a fantasia. Tornaram-se idiotas quando descobriram que a fantasia também lhes enviaria o boleto.
Ideologias possuem uma extraordinária capacidade de sobreviver aos próprios fracassos. Sempre encontram uma narrativa nova. Balanços não.
O eleitor aceita explicações. O caixa exige dinheiro.
E na sua empresa, quem está pagando o boleto da fantasia?

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Este blog só aceita comentários ou críticas que não ofendam a dignidade das pessoas.