terça-feira, 18 de agosto de 2026

Aporofobia ou horror aos pobres - Artigo de José Luiz Alquéres


Aporofobia ou horror aos pobres

José Luiz Alquéres*

17/08/2026

Entre os temas que vêm ganhando espaço na filosofia moral está a Aporofobia, palavra que significa aversão ou rejeição aos pobres. O conceito tem implicações profundas na realidade das grandes cidades brasileiras, sobretudo quando analisado à luz do processo de urbanização ocorrido nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial.

Antigas cidades, muitas nascidas ainda no período colonial, sofreram ocupação rápida e desordenada, decorrente da enorme migração do campo para os centros urbanos. O Brasil possui hoje índice de urbanização próximo de 90%. A China, em comparação, só ultrapassou a marca de 50% no início da década passada e hoje está em torno de dois terços. A urbanização brasileira criou, ao longo dos últimos 70 anos, enormes áreas ocupadas por populações de baixa renda, muitas vezes em locais sujeitos a alagamentos e deslizamentos.

Essas condições precárias vêm sendo reproduzidas por gerações, pois as políticas públicas não conseguiram enfrentar adequadamente o desafio de proporcionar vida digna a um contingente expressivo da população. Segundo o Censo de 2022, 20% da população da cidade do Rio de Janeiro viviam em favelas e comunidades urbanas, categoria específica do IBGE que não abrange, naturalmente, todas as formas de precariedade habitacional existentes no país.

Mais grave é o caráter geracional do fenômeno. Quando sucessivas gerações nascem e crescem submetidas às mesmas condições, aquilo que deveria ser intolerável — o precário, o informal, o degradante — acaba se tornando usual e até percebido por muitos como realidade inescapável das regras do jogo social que separam os segmentos de maior e menor renda. É a banalização do inominável.

A visão de seres humanos vivendo em condições tão degradantes comove aqueles que possuem um mínimo de compaixão e solidariedade. Para outros, porém, produz aversão e estimula explicações superficiais para um fenômeno complexo. Surgem argumentos que atribuem a pobreza a uma suposta preguiça dos pobres, a uma predisposição à criminalidade ou à vadiagem, ou à pretensa recusa a estudar, trabalhar e buscar melhores condições de vida.

Essas interpretações preconceituosas ignoram um fato fundamental: nessas áreas, os serviços públicos básicos jamais estiveram disponíveis em escala adequada. As escolas foram historicamente precárias, os postos de saúde insuficientes e as condições sanitárias deficientes produziram índices elevados de mortalidade infantil, com consequências sobre a expectativa de vida. Dentro de uma mesma cidade como o Rio de Janeiro, comparações entre áreas como o Complexo do Alemão, a Maré e a Rocinha e bairros de maior renda evidenciam profundas desigualdades nas condições de vida.

Talvez a manifestação mais preocupante desse fenômeno esteja se revelando no século XXI. Ela remete ao conceito de “cidade partida”, consagrado por Zuenir Ventura, membro da Academia Brasileira de Letras.

A expressão descreve uma cidade formada por populações que, embora interajam permanentemente com a cidade formal, são obrigadas a desenvolver formas próprias de organização e valores que lhes permitem sobreviver em ambientes profundamente degradados, nos quais direitos fundamentais da pessoa humana permanecem sem pleno atendimento.

A provisão adequada de eletricidade, água, comunicações e esgotamento sanitário, assim como de acesso e mobilidade, constitui um dos grandes desafios urbanos deste século. Municípios e estados, até agora, mostraram-se incapazes de oferecer respostas na escala necessária.

As concessionárias de serviços públicos, juntamente com o poder público, precisam repensar suas políticas para essas áreas. A solução não está simplesmente na repressão nem em restringir o acesso aos serviços àqueles que podem pagá-los integralmente. O desafio é desenvolver formas criativas de urbanização que integrem efetivamente essas populações ao tecido urbano.

Isso é possível do ponto de vista econômico-financeiro, desde que concebido como programa de longo prazo, com horizonte de aproximadamente dezesseis anos, e sem o moralismo de imaginar que todos os investimentos devam ser financiados por quem não dispõe de condições para pagá-los.

Há, antes de tudo, um dever de humanidade na recuperação dessas áreas. É necessário construir moradias decentes, postos de saúde, centros comunitários, escolas e infraestrutura urbana adequada. O problema deve ser entendido como amplo processo de dignificação da vida humana. É assim que poderemos começar a riscar a palavra Aporofobia do dicionário de nossas cidades.

A permanência da cidade partida tende a associar cada vez mais a pobreza à criminalidade, à impossibilidade de circulação pelas ruas e ao afastamento entre pessoas em razão de suas condições econômicas. Mais preocupante é a perspectiva de agravamento das tensões sociais caso não se assegure o básico à enorme população que vive nessas áreas.

As próximas eleições constituem, portanto, momento de reflexão e oportunidade. Candidatos e futuros governantes deveriam assumir o desafio de formular grandes programas público-privados de urbanização, reunindo governos, concessionárias e demais agentes capazes de transformar essas áreas.

Não se trata de imaginar soluções imediatistas para um problema construído durante décadas, mas de iniciar um processo consistente, capaz de mitigar suas manifestações mais graves no curto prazo e transformar estruturalmente essa realidade em pouco mais de uma década.

Superar a cidade partida exige mais do que combater seus efeitos. Exige enfrentar suas causas, incorporar suas populações à cidade formal e reconhecer que acesso à moradia, saneamento, educação, saúde, energia e demais serviços essenciais não representa concessão aos pobres, mas condição elementar de dignidade humana.

*José Luiz Alquéres é conselheiro emérito do CEBRI.


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