QUANDO O POETA DESCOBRE A REALIDADE
Carlos Alberto Lima Coelho
São Luís-Maranhão - Brasil
Houve um tempo em que me inspirei como um poeta e imaginei que as palavras poderiam melhorar o mundo.
Dentro de mim havia cores. Muitas cores. Algumas nasciam da esperança, outras do desejo de acreditar que o homem seria capaz de construir uma sociedade mais justa, onde a riqueza não humilhasse a pobreza e onde ninguém precisasse esconder a própria dignidade sob uma roupa desgastada.
Com essas tintas interiores, comecei a pintar meus cenários.
Coloquei beleza onde havia tristeza. Plantei flores onde o chão parecia seco. Aproximei os homens, distribuí abraços, inventei sorrisos e fiz do amor uma espécie de moldura para aquele quadro imaginário.
Por alguns instantes, tudo parecia verdadeiro.
O poeta possui esse privilégio: consegue visitar lugares que ainda não existem. Enxerga pontes onde os outros veem abismos. Descobre luz nas frestas da escuridão e, quando necessário, transforma lágrimas em versos.
Mas chegou o momento em que precisei afastar-me um pouco da tela para observar melhor a pintura.
Foi então que percebi que algumas cores não pertenciam ao mundo real.
Lá fora continuavam existindo desigualdades. De um lado, a fantasia dos salões elegantes; do outro, a roupa simples daquele que luta diariamente pela sobrevivência. Uns desperdiçando o que tantos outros jamais tiveram. Gente cercada de gente, mas vivendo profundamente só.
Meu quadro começou a perder as cores.
A realidade passou sobre ele como uma chuva inesperada. Misturou as tintas, apagou alguns traços e me obrigou a reconhecer que aquele mundo perfeito existia apenas dentro de mim.
O sonho havia acabado?
Talvez não.
Com o passar dos anos, compreendi que o poeta não escreve porque o mundo é belo. Muitas vezes escreve justamente porque ele ainda precisa tornar-se belo.
A poesia não existe apenas para celebrar flores. Também serve para apontar espinhos.
Hoje, olhando aqueles versos que nasceram décadas atrás, percebo que o jovem poeta desejava muito mais do que escrever. Queria compreender o homem. Queria descobrir por que somos capazes de amar tanto e, ao mesmo tempo, produzir tanto desamor.
Ainda não encontrei todas as respostas.
Continuo misturando cores, pensamentos, lembranças e esperanças.
E talvez seja essa a missão de quem escreve: mesmo sabendo que o cenário perfeito não existe, continuar segurando o pincel.
Porque enquanto houver alguém disposto a imaginar um mundo melhor, ainda haverá uma pequena possibilidade de transformá-lo.
Carlos AL Coelho
Inspirado no poema “Inspirei-me como um poeta”, do livro Conversa de Amigo ou Denúncia.

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