quinta-feira, 27 de agosto de 2026

QUANDO O POETA DESCOBRE A REALIDADE, por Carlos Alberto Lima Coelho, escritor e poeta


QUANDO O POETA DESCOBRE A REALIDADE

Carlos Alberto Lima Coelho

São Luís-Maranhão - Brasil

Houve um tempo em que me inspirei como um poeta e imaginei que as palavras poderiam melhorar o mundo.

Dentro de mim havia cores. Muitas cores. Algumas nasciam da esperança, outras do desejo de acreditar que o homem seria capaz de construir uma sociedade mais justa, onde a riqueza não humilhasse a pobreza e onde ninguém precisasse esconder a própria dignidade sob uma roupa desgastada.

Com essas tintas interiores, comecei a pintar meus cenários.

Coloquei beleza onde havia tristeza. Plantei flores onde o chão parecia seco. Aproximei os homens, distribuí abraços, inventei sorrisos e fiz do amor uma espécie de moldura para aquele quadro imaginário.

Por alguns instantes, tudo parecia verdadeiro.

O poeta possui esse privilégio: consegue visitar lugares que ainda não existem. Enxerga pontes onde os outros veem abismos. Descobre luz nas frestas da escuridão e, quando necessário, transforma lágrimas em versos.

Mas chegou o momento em que precisei afastar-me um pouco da tela para observar melhor a pintura.

Foi então que percebi que algumas cores não pertenciam ao mundo real.

Lá fora continuavam existindo desigualdades. De um lado, a fantasia dos salões elegantes; do outro, a roupa simples daquele que luta diariamente pela sobrevivência. Uns desperdiçando o que tantos outros jamais tiveram. Gente cercada de gente, mas vivendo profundamente só.

Meu quadro começou a perder as cores.

A realidade passou sobre ele como uma chuva inesperada. Misturou as tintas, apagou alguns traços e me obrigou a reconhecer que aquele mundo perfeito existia apenas dentro de mim.

O sonho havia acabado?

Talvez não.

Com o passar dos anos, compreendi que o poeta não escreve porque o mundo é belo. Muitas vezes escreve justamente porque ele ainda precisa tornar-se belo.

A poesia não existe apenas para celebrar flores. Também serve para apontar espinhos.

Hoje, olhando aqueles versos que nasceram décadas atrás, percebo que o jovem poeta desejava muito mais do que escrever. Queria compreender o homem. Queria descobrir por que somos capazes de amar tanto e, ao mesmo tempo, produzir tanto desamor.

Ainda não encontrei todas as respostas.

Continuo misturando cores, pensamentos, lembranças e esperanças.

E talvez seja essa a missão de quem escreve: mesmo sabendo que o cenário perfeito não existe, continuar segurando o pincel.

Porque enquanto houver alguém disposto a imaginar um mundo melhor, ainda haverá uma pequena possibilidade de transformá-lo.

Carlos AL Coelho

Inspirado no poema “Inspirei-me como um poeta”, do livro Conversa de Amigo ou Denúncia.


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