quarta-feira, 2 de setembro de 2026

LATITUDE DO MEU SONHO - Por Carlos Alberto Lima Coelho, escritor e poeta


LATITUDE DO MEU SONHO



Carlos Alberto Lima Coelho, escritor e poeta

São Luís - Maranhão-Brasil


Há momentos em que fecho os olhos e, paradoxalmente, é quando mais consigo enxergar.

Na minha contemplação interior, uma luz esverdeada invade a retina da imaginação. Não sei se nasce diante dos olhos ou dentro da alma. Apenas surge, silenciosa e inesperada, como se o universo resolvesse abrir uma fresta para que eu pudesse espiar alguns de seus mistérios.

Penso na aurora boreal.

A ciência explica aquele espetáculo com a precisão que lhe cabe. Fala dos átomos de oxigênio nas altas camadas da atmosfera, das partículas vindas do vento solar, das colisões invisíveis que acabam transformadas em luz. É bonito compreender. Mas talvez existam fenômenos que, depois de explicados, continuem guardando o mistério.

Porque a ciência pode dizer de onde vem a luz. Difícil é explicar o que ela acende dentro de nós.

E então viajo.

Sem malas, passaporte ou passagem, transporto-me mentalmente para a Lapônia finlandesa. Caminho por extensões brancas, sinto o vento frio no rosto e levanto os olhos para um céu que parece ter sido pintado por mãos invisíveis.

Lá, entre noites intermináveis e dias em que o Sol parece esquecer-se de desaparecer no horizonte, minha imaginação se embriaga de solidão.

Uma embriaguez diferente daquela dos tempos de boemia.

Sou, nesse instante, novamente o príncipe das noites mal dormidas. Mas já não procuro as mesmas madrugadas. O tempo mudou o endereço dos meus desejos.

Outrora, a noite tinha música, vozes, encontros, amores e despedidas. Hoje, algumas noites possuem apenas silêncio. E descobri que o silêncio também sabe conversar.

É nele que reencontro o poeta que sempre caminhou escondido dentro de mim.

Na Lapônia imaginária, lembro-me da antiga lenda do “fogo da raposa”. Diziam que raposas mágicas corriam pelos montes nevados e, ao tocarem a neve com suas caudas, espalhavam faíscas pelo céu. Dessas centelhas teria nascido a aurora.

A razão sorri diante da lenda.

A poesia, não.

A poesia acredita.

Talvez porque todo poeta guarde dentro de si alguma necessidade de acreditar no impossível.

E eu, boêmio de outrora, talvez um pouco demente nas aventuras da juventude, percebo quantas noites de amor e prazer ficaram perdidas nos corredores do tempo. Algumas se apagaram. Outras permanecem como pequenas auroras na memória.

Agora, porém, não corro atrás delas.

Deixo que venham.

Deixo que passem.

A alma romântica continua aqui, apenas aprendeu outra forma de amar. Já não precisa necessariamente do calor das antigas madrugadas. Às vezes, basta-lhe o vento frio de uma viagem que nunca fiz, a claridade verde de um céu que apenas imaginei e a companhia silenciosa das lembranças.

Talvez seja essa a verdadeira aurora que vejo.

Não aquela que colore o céu da Lapônia, mas a que, de tempos em tempos, ilumina o território secreto da memória.

E assim permaneço, entre a ciência e a lenda, entre o homem que fui e aquele que sou, contemplando minha própria noite polar.

À espera de alguma luz.

Porque, mesmo quando tudo parece escuro, há sempre uma aurora nascendo na latitude dos nossos sonhos.


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