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domingo, 25 de outubro de 2015

AOS MESTRES COM CARINHO

POR ALANNA SOUTO


No meio da minha existência atribulada parei as atividades acadêmicas do pão nosso de cada dia, ementas para sala de aula, além de projetos paralelos que abracei em passinhos dos antigos o resplandecer da âncora do semeadura, o valor tátil do saber e da sabedoria eternamente almejada, e assim estacionei devagar o carro com todo cuidado no tempo físico-cósmico, apesar de ser um tanto agoniada, ás vezes, até desastrada...contudo, a prática, a coragem e a persistência em melhorar nos leva a perfeição e a uma condução mais equilibrada desse automóvel que é a vida.

Como é saborosa também a sensação e a paz daqueles que lhe reconhecem sua atuação enquanto ser amigo, sem crises de ego e atitudes reativas quando nem sempre a mão que afaga está para acarinhar, até porque um “tapinha” não dói se for para evoluir e qualificar a relação, a não ser naqueles levados pelos dilúvios narcísicos de si mesmo, acabam metendo os pés pelas mãos, arranhando e muitas vezes matando a essência de um cristal tão precioso chamado amizade em nome de uma grande tolice. Os rios e o naufrágio de Narciso é certamente inevitável já nos diz a mitologia grega, bem como o rompimento do cristal que tanto lhe iluminou. A vida prossegue sem dó, quer mais saúde, renasce e voa.

O grande desafio para os alfabetizados dos arcanos universais da sincronia é entender a diacronia do tempo e romper com o ciclo cármico da repetição, especialmente, da experiência negativa porque o que é bom vale a pena ver de novo!

Todo esse refletir do cotidiano, seus affaires e conflitos é para justamente reconhecer o valor imaterial do papel do mestre em nossas vidas. Mas o que significa isso para você, o mestre? Quem é esse cara ou essa cara?

Bom, uma vez, depois de uma mesa redonda que participei sobre “Umbanda na mídia” num evento super cult e libertário chamado Muvuca, uma professora da comunicação da UFPA me perguntou o que era ser doutor para mim? Nossa, ela me pegou de surpresa, “caraca , eu ainda estou na lida para isso, passei por baques dolorosos, interrupções, alguns apedrejamentos daqueles que apenas sabem da história “oficial” — é quando as máscaras caem e você descobre quem são os verdadeiros amigos, momento incrível, dói, mas é fundamental — e retomei o doutorado no NAEA como fênix ressurge das cinzas ao ser aprovada na seleção”, pensei tudo isso após a pergunta, e então silenciei, pois não tinha uma resposta objetiva e a profa. do outro lado retribuiu sorrindo.

Hoje penso que ser doutor no âmbito acadêmico nada mais é que um fechamento de um ciclo de amadurecimento enquanto ser produtor e transformador do conhecimento, quiçá da sociedade, dependendo da proposta...é isso, objetivo e claro. Obviamente, um ponto de vista pessoal. Alguns doutores deslumbrados podem discordar, fiquem a vontade.

Contudo, o mestre que trato transcende mestrado e doutorado, alguns até possuem essa titulação, mas são poucos que conseguem se desamarrar dos espelhos dos muros oficiais e populares, logo mestre são todos aqueles que buscam o caminho que subvertem os refletores do intelectual do movimento A ou Z ou a liderança religiosa que dogmatizou uma religião não institucional transformando um grupo espiritual numa seita, não... não é nada disso, percebam que todas essas facetas que a sociedade faz muitos “comprarem” esses gurus por simplesmente não romperem com a estrutura que está aí imposta de não questionar a si mesmo, não trabalhar a relação de afeto, de a todo custo evitar a refletir sobre valores humanistas, tais como humildade e autonomia ou dar a vez para outro passar, se estás com o tempo de sobra ou não, por exemplo....

O caminho do autoconhecimento é o combustível para a real mudança. Afinal o que adiantar levanta a bandeira dos direitos humanos, do socialismo ou do impeachment da Dilma, se todos continuam vociferando em cima do seu vizinho, alimentando invídia, julgando e emitindo energias negativas para aquele/aquela colega de trabalho que está ascendendo por simplesmente trabalhar um pouco mais...ou ainda se recusa a pedir desculpas por simplesmente não querer admiti que foi vil ou ser um ingrato da vida.  E assim o marxismo científico foi deturpado para o socialismo real, quem não lembra da ganância e do populismo totalitário do Stálin; o anarquismo se fez legítimo com o banqueiro anarquista, já deu a letra Fernando Pessoa e o capitalismo mesmo com o avançar dos direitos, ainda continua selvagem.

Aqui cito dois seres extraordinários — diga-se de passagem nenhum dois tem doutorado, para o lamentar dos deslumbrados por títulos e não por sabedoria — que são Paulo Freire e o indiano, que foi prometido a ser uma espécie de novo Cristo pela sociedade teosófica, Krishnamurti o qual sensatamente rompeu com essa organização após uma série de episódios insustentáveis por seus tutores em lhe converter a mártir, enfim, esses dois brilhantes seres humanos conseguiram alcançar o que há de mais próximo do que, de fato, se trata maestria e do ser mestre. Ambos defenderam, combateram e subverteram a educação tradicional. Mas o que os torna exemplos de mestres? O que há nesses mestres de inspirador para nossos caminhos enquanto tal? Vocês devem ou deveriam perguntar, se há centenas de pessoas dentro espaços educativos ou fora deles que também combatem a educação bancária?

A grande sacada dos dois é o caminho da autonomia no processo de ensino e aprendizagem, parece ser simples, mas na prática as curvas para se chegar nessa linha de chegada de ser autônomo é muito complexa, muitas vezes até dolorosa, inclusive em nossa vida prática. Nesse método de ensino, o microfone e os holofotes saem da mãos do professor e a principal voz é a do aluno...instigado, obviamente, pelo professor-orientador que lhe provocará por meio da sua realidade e cultura a aprender a ler não somente as palavras e escrevê-las, mas, sobretudo, fazer a leitura crítica e transformadora do seu mundo. E dessa forma seria possível ocorrer uma grande democratização da cultura no ato da inovação do ensino e da produção desses conhecimentos, professor-aluno-sociedade.

É importante registrar ainda que todo esse processo de aprender a ler mundo de forma participativa e libertadora empregada por Paulo Freire em suas diversas obras e na sua aplicabilidade prática vislumbrava um grande senso de amor e de transformação humanista para com aqueles que compartilhava de suas ideias e do seu processo de ensino. Não era simplesmente uma mudança de roupagem ou uma capa externa.

Já o Krishnamurti, o qual tenho uma identidade ainda maior em função da experiência espiritual e também conheço sua filosofia um pouco mais, segue essa direção de Freire, mas tocando ainda mais na ferida humana. Para ele o caminho para uma educação correta deve ser a transformação interior e a libertação humana a partir disso a sociedade seria transformada. É por meio da educação que os seres humanos alcançariam o verdadeiro espírito religioso, no sentido do religare enquanto seres verdadeiramente irmanados e conectados com a centeia da criação, somente assim poderiam nos transformar e revolucionar o mundo.

Aos precipitados que julgam apressadamente sem conhecer o autor e sua obra, Krishnamurti era um combatente ferrenho das religiões desde de seu rompimento com a sociedade teosófica buscou o caminho da espiritualidade a partir da meditação, da observação e do amplo conhecimento, independente de linha oriental ou ocidental, longe de igrejas, aliás as criticava e duramente.

Na sua obra A Educação e o verdadeiro significado da vida, Krishnamurti vai sabiamente nos lembrar:

“Só o amor pode despertar a compreensão para com o próximo. Quando há amor, há comunhão instantânea com outra pessoa, no mesmo nível, ao mesmo tempo (...). Para compreender o significado da vida, com seus conflitos e suas dores, precisamos pensar independentes de toda autoridade, inclusive da autoridade da religião organizada; se, porém, desejando ajudar a criança, citamos exemplos de autoridade, estaremos apenas incentivando o temor, a imitação e várias formas de superstição”

Nesse trecho fica claro, assim como Freire, o sereno e firme filósofo Krishnamurti enfatiza o quão pernicioso pode ser o autoritarismo no processo de ensino e aprendizagem, capaz, inclusive, de matar os instintos de criação e defensivos de uma criança. E somente o   caminho da liberdade por meio do percebimento do pensar e do sentir (o autoconhecimento) pode se encontrar a chave para se formar um ser autônomo, o qual não evita perturbações críticas sobre si, dessa forma a inteligência se mantém cada vez mais desperta. E essa inteligência fortemente desperta é a intuição. A verdadeira e a guia mais segura da vida, diz ele, é a intuição que lhe levará a torna-se um mestre de si mesmo, sem relações de dependências com o orientador terreno, professor(a), mãe/pai de santo e afins. Afinal “Deus ou a Verdade estão muito além do pensamento e das necessidades emocionais”.

Finalizo esse pequeno ensaio, ou melhor, esses rascunhos de reflexões sobre esses dois grandes pensadores e mestres — que se diga de passagem, o objetivo do texto não foi fazer nenhum tratado sobre esses autores mesmo porque não sou especialista em Freire, longe disso e sobre o Krishnamurti ainda tenho muito que meditar sobre suas ideias — fazendo uma homenagem nesse dia 15 de outubro, dia do professor, a todos os mestres e mestras de minha vida, sejam os terrenos e os espirituais, não tenho dúvida que esses orientadores que permaneceram ou os que "chegaram" estão presentes certamente para somar e me fortalecer enquanto ser vivente no meu aprendizado seguindo os passos do caminho da autonomia e da liberdade.

Amém

Shalom

Saravá.

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