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domingo, 29 de novembro de 2015

JESUS E O CÁLICE DE OURO

Djalma Santos*


A Lenda do Santo Graal

Há muitos séculos, aproximadamente por volta do século VII, vivia na cidade de Roma um Conde milionário, dono de muitas terras, muitos imóveis, entre eles o castelo em que vivia com sua família. Possuía ouro, prata, joias valiosíssimas, e um museu particular de obras sacras, ou seja, peças, artigos, duplicatas e relíquias de uso na Igreja Católica; assim como roupas, utensílios que pertenceram a Santos famosos, Papas e demais religiosos de todos os tempos.

O Conde era muito religioso, e frequentava a Capela Sistina, onde uma vez por semana, confabulava com Cardeais, Arcebispos e demais graduados da Igreja tradicional, num chá que se promovia entre os membros da Igreja e ele, que era um dos maiores colaboradores do papado em matéria de doações para ajuda nas obras do Vaticano.

Nessas reuniões, conversava-se muito sobre todos os assuntos, mas ao final do encontro, o assunto era sempre o Museu particular do Conde, que segundo ele, tinha todos os objetos e relíquias em circulação nas Igrejas de todo o mundo, gerando assim, certa antipatia em alguns graduados da Igreja, que viam ele como um fanfarrão, que gostava de se gabar do seu acervo de obras sacras.

Numa dessas reuniões, em que o assunto foi novamente ventilado, um Cardeal resolveu questionar o Conde a respeito do seu Museu caseiro, e perguntou se ele tinha o Cálice de Ouro, que Jesus teria usado para tomar vinho com seus Apóstolos, na última ceia, e que teria dado origem à “Lenda do Santo Graal”; que segundo a Igreja, colocando-se vinho no Cálice, ele se transformaria em sangue.

Ao ouvir a pergunta do Cardeal, o Conde levou alguns segundos matutando e respondeu: Esse Cálice eu não tenho, mas preciso saber se ele existe. O religioso então respondeu que, o Cálice de Ouro estava em algum lugar ignorado, ou seja, numa Igreja, numa Mesquita, num Museu particular como o dele, mas sua existência era real, senão o Vaticano não o teria transformado na “Lenda do Santo Graal”.

Encerrada a reunião, o Conde voltou para o seu Castelo totalmente transtornado, e com a ideia fixa de que teria de encontrar o Cálice de Ouro, para adicioná-lo ao seu acervo, custasse o que custasse, nem que tivesse que gastar metade de sua imensa fortuna, na busca incansável desse objeto sagrado que pertenceu ao divino Mestre Jesus.

Desejando levar seu plano adiante, reuniu seus familiares e declarou o seguinte: Vou dividir toda a minha fortuna em duas partes: Vocês ficarão com o castelo e metade dos meus bens, e o restante vou transformar em dinheiro vivo, para buscar pelo mundo o Cálice de Ouro, que Jesus bebeu vinho na última ceia com seus apóstolos, formando uma equipe de busca, começando dentro da própria Roma.

Reuniu vários auxiliares de sua confiança, e começou sua investigação na cidade de Roma, que tem centenas de igrejas e Mosteiros, levando aproximadamente cinco anos sem nenhum resultado positivo. O Cardeal que deu a informação sobre o Cálice de Ouro, falou sobre as características do Cálice, para que não houvesse dúvidas quando fosse encontrado. E depois de examinar dezenas de cálices nada havia sido encontrado.

Resolveu então sair de Roma e ir para o interior da Itália, onde existe também um número incrível de igrejas, conventos e mosteiros, investigando em todos eles, sem nenhum resultado positivo, o que o levou a dispensar sua equipe de investigadores, a fim de reduzir despesas, e também porque já havia decorrido dez longos anos de sua partida de Roma, e seus auxiliares estavam com saudades de suas famílias.

Sem os colaboradores, partiu sozinho para os países da Europa, começando pela Espanha, depois Portugal, que são eminentemente católicos, e poderiam perfeitamente abrigar em alguma igreja o Cálice de Ouro. Estava na França e Inglaterra, e em nenhum desses países nem mesmo se ouviu falar dessa vasilha utilizada por Jesus junto aos seus Apóstolos, e mais dez anos haviam sido decorridos.

Foi quando ele observou que seu dinheiro havia acabado, mas mesmo assim resolveu continuar a busca em outros países, trabalhando para ganhar seu sustento, e o que sobrava, pagava informações a respeito do Cálice. Era um letrado, com curso superior e falava várias línguas, o que lhe deu condições de utilizar seus conhecimentos para dar aulas e continuar procurando o Cálice.

Já idoso, e sem condições de trabalhar para continuar a busca; afastado de casa, dos amigos e parentes, acabou por se tornar um mendigo, mas mesmo na mendicância, ele continuava procurando o Cálice. Juntou-se a um grupo de deserdados da sorte, que moravam debaixo de um viaduto, e ali passou a ser uma espécie de líder dos mendigos, mesmo porque era o mais instruído, e tudo o que arrecadava durante o dia, ele distribuía fraternalmente com todos. Conseguiu uma maleta de remédios de primeiro socorro, e como tinha conhecimento de medicina, passou a cuidar dos feridos e doentes.

Certa noite muito fria, pois estava na Rússia com a temperatura abaixo de zero grau, sentiu saudade de seu Castelo e de seus familiares, e resolveu que iria voltar para casa sem ter encontrado o Cálice de Ouro. Despediu-se de seus companheiros de infortúnio, e iniciou uma longa jornada de volta, pegando carona, andando a pé, montado em animais, de carroça, no sentido de alcançar a cidade de Roma e o seu antigo Castelo.

Já estava com 90 anos, pois havia saído na busca do Cálice com 50, e agora velho e alquebrado, buscava o conforto de seu antigo lar, mesmo sem saber como seria recebido pela sua parentela familiar. Depois de um ano conseguiu chegar à cidade de Roma, e era noite de Natal! As ruas da cidade estavam enfeitadas e luzes feéricas brilhavam nas vitrinas mostrando os artigos de Natal. As pessoas apressadas caminhavam ao seu lado portando embrulhos de presentes, e ele se arrastava pelas ruas, a fim de chegar ao seu Castelo.

Finalmente chegou em frente ao portão principal do Castelo; e apoiou-se nas grades que cercavam o imóvel, tendo que se afastar devido aos latidos dos cães ferozes que não gostavam de estranhos. Ouviu, então, uma voz que o chamava dizendo o seguinte: Os donos do Castelo não gostam de mendigos, e podem soltar os cães; vem comigo até um riacho que passa abaixo, e vou lhe dar um pedaço de pão que ganhei nesta manhã.

Voltou-se para a voz que o chamava, e era um mendigo igual a ele, com um saco sujo as costas, que o encaminhou para um regato de águas cristalinas que passava pelo Castelo, que ainda era de sua propriedade. Ao chegar ao regato, o novo amigo retirou de uma bolsa suja um pão que partiu ao meio dando a metade, e a seguir encheu de água uma caneca de ferro enferrujada, e deu-lhe para beber. O mendigo dono do Castelo e autor da busca pelo Cálice de ouro bebeu a água e adormeceu profundamente.

No outro dia, foi encontrado morto à beira do riacho um mendigo, o que era normal na época do Natal, devido ao frio que fazia no mês de Dezembro, e teria passado despercebido, se não houvesse um fato que chamou a atenção das autoridades. O mendigo morto segurava em uma das mãos uma caneca de ferro, e por mais que tentassem retirar a caneca não foi possível, sendo enterrado com a caneca na mão.

Surge então uma pergunta: Seria mesmo de ouro, a vasilha usada por Jesus na última ceia com os Apóstolos para beber vinho, ou seria uma simples caneca de ferro, tão ao gosto da simplicidade e da humildade do nosso querido mestre Jesus. Na vida cotidiana, passamos às vezes anos e anos procurando esse Cálice de Ouro, para encontrarmos no final de nossas vidas, uma caneca de ferro, que representa o trabalho e a luta que devemos empreender na busca da nossa felicidade.

*Djalma Santos é escritos e palestrante espírita

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