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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Pondo a modéstia de parte

Edson Vidigal


Por séculos uma curiosidade dominou a inquietação não só dos pensadores e cientistas de então como também do Povo em geral, essa ainda hoje já nem tão latente, mas ainda volta e meia ocupando muitas interrogações – como se forma ou de onde vem a aura irradiadora do poder incontrastável de alguns governantes?
Ao delegar a Sansão todos os poderes, incluindo força física, para que como Juiz de primeira e ultima instância promovesse a paz em Israel afugentando os filisteus que teimavam em tiranizar o Povo,  Deus ordenou que ele, Sansão, não cortasse o cabelo e vivesse apartado dos demais do seu tempo, abstendo-se dentre outros interesses de prostitutas, bebidas fortes e carnes impuras. Fosse hoje, linguiça e bacon nem pensar.
Deu-se, porém, que o Sansão Juiz achando que nada o impediria nas funções não aguentou a distancia dos comuns mortais até que depois de uns tragos e muito empolgado foi ter com Dalila, que jogava no time dos filisteus.
Dalila então querendo saber de Sansão a origem de tanta força e disposição, ouviu que tudo vinha da sua vasta cabeleira. Depois de um baita porre e profundo sono, o Magistrado acordou sem sua cabeleira. Depois, lhe furaram os olhos. E ele não entendera que aquilo tudo era simbólico. Todo poder da sua força emanava de Deus, o qual vendo contrariada a sua lei lhe retirou toda legitimidade.
Sansão que enquanto poderoso emparedara até leões de verdade, agora totalmente cego, querendo mostrar que ainda tinha força, inflou o peito  e sacudindo as colunas do templo fez desabar tudo inclusive sobre ele. Amém? Amém...
Ao lecionar que todo poder é afrodisíaco, Kissinger ao que parece não só quis justificar as pedaladas de Sansão como as de tantos outros que a história não esqueceu.
Por exemplo, Napoleão Bonaparte era baixinho, tudo proporcional às dimensões do seu corpo, mas pouco antes de suas batalhas, quase todas vitoriosas, nunca quis saber daquela máxima de que mulher mais alta cansa. No campo de batalha, dizem, era leão e touro.
Morto por envenenamento no exilio em Santa Helena, o legista da autopsia logo se apressou com o bisturi a lhe decepar o Zezinho, coitado, em estado de repouso não media mais que dois centímetros e meio.
O Zezinho do Napoleão vagueou entre várias mãos e alguns países até que foi arrematado num leilão por um urologista americano, estando até hoje apartado do seu legitimo dono, cujos demais, ou de menos, repousam gloriosamente no Arco do Triunfo, principal símbolo francês na cidade de Paris.
Não bastou que o consenso entre os povos civilizados determinasse, como de fato está escrito em todas as Constituições democráticas, que todo o Poder emana do Povo.
Rasputin, Frank Sinatra, Garrincha, dentre outros, povoaram as inquietações de incontáveis curiosos e pesquisadores interessados na origem de tanto poder, quer através das curas que na condição de monge realizava na Corte do Czar na Rússia; quer através da voz que provocava histeria coletiva no mulherio; quer através do futebol maneiro e eficaz que só ele, nascido em Pau Grande, município do Rio de Janeiro, sabia jogar.
No Maranhão agora, onde quase tudo acontece com muito atraso, as redes sociais apressadas espraiam conclusões no tema, a partir de uma foto do Governador em trajes sumários num dia de muito sol em alguma praia de São Luís.
Todo o Poder que emana do Povo só se mantem podendo enquanto se mantiver sintonizado com a origem. Deus e o Povo. Sem essa sintonia não pode mais nada. Não é mais legitimo.

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

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