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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

AS DÚVIDAS DE MICHEL TEMER


Carlos Chagas

Voltaire, nascido François Marie Arouet, com pouco mais de vinte anos de idade foi preso na Bastilha. O Regente da França prometeu conceder-lhe uma visão de Paris que certamente nunca tinha apreciado. Vingava-se de uma observação do irreverente cronista dos costumes da corte, para quem em vez de vender metade das cavalariças reais, como economia, Felipe devia livrar-se dos asnos que troteavam ao redor do trono. Arrependeu-se o soberano substituto do infante Luís XV. Mandou soltar Voltaire e até dedicou-lhe uma pensão para que pudesse prover “habitação e alimentação”.

Por ter agradecido, o jovem viu-se novamente condenado à cadeia, porque se disse feliz pelas preocupações do Regente para com suas refeições, mas dispensava aquelas destinadas à sua hospedagem…

Tem gente que não perde a ocasião de uma crítica bem ou mal humorada, mesmo prejudicial ao seu futuro.  

Esta semana o presidente Michel Temer convidou o ex-presidente Fernando Henrique para jantar no palácio do Jaburu.

O sociólogo discorreu sobre os percalços e as vantagens do exercício da chefia do governo, mas não deixou de provocar o anfitrião ao lembrar serem muito mais cômodas as instalações do palácio da Alvorada, para onde o atual presidente ainda não se mudou. Assim como pareciam mais sofisticados e substanciais os jantares na residência oficial.

No dia seguinte, mesmo admitindo a hipótese de estar enganado, Temer arriscou um palpite depois de ouvir de FHC referências pouco entusiasmadas a respeito de Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra, quando deixou evidente não apoiar nenhum dos três como futuro presidente. Qual, então, seria o tucano candidato das suas preferências?

Para Temer, pelo jeito que a conversa tomou, é o próprio. Fernando Henrique não arquivou suas pretensões, agora retemperadas pelo empate entre os três pretendentes mais ostensivos no PSDB. Não se passa uma semana sem que conceda uma entrevista ou escreva um artigo na imprensa diária. Dá palpite em todos os assuntos, faz questão de aparecer onde puder.

Suas recentes memórias, já no segundo volume de uma série prevista para cinco, envolvem as importantes e as desimportantes passagens pelos dois mandatos.

Em suma, mesmo iniciando a oitava década de vida, não perde oportunidade de aproveitar sua presença no palco.

Estaria o presidente Michel Temer enganado em seus temores? Além de não evitar observações de todo tipo, até capazes de aumentar-lhe dificuldades pessoais, Fernando Henrique deixa no ar uma dúvida. Será mesmo candidato?


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