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domingo, 4 de dezembro de 2016

Poeta Ferreira Gullar morre aos 86 anos

Jornal do Brasil

Morreu na manhã deste domingo (4), aos 86 anos, o poeta, ensaísta, crítico de arte e jornalista Ferreira Gullar. Ele estava internado no hospital Copa D'Or, no Rio de Janeiro, há cerca de 20 dias devido a um quadro de insuficiência respiratória.

Nascido José Ribamar Ferreira em 10 de setembro de 1930, em São Luis do Maranhão, Gullar foi eleito imortal em 2014 pela Academia Brasileira de Letras (ABL), militou pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) nos Anos de Chumbo e viveu na Argentina, no Chile e na União Soviética durante o período da Ditadura Militar do Brasil.

Antes disso, nos anos 50, o poeta, ao lado do artista plástico Amilcar de Castro, fez história no jornalismo brasileiro com a criação do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, considerado um maco do jornalismo cultural. No SDJB, Gullar assinou textos que apontaram para o futuro das artes no país, tais como "Manifesto Neoconcreto" e "Teoria do Não Objeto".

 Poeta Ferreira Gullar é autor de textos teóricos que integram hoje a história da arte no Brasil
Gullar descobriu a poesia moderna aos 19 anos, a partir de poemas de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Ficou escandalizado com o estilo desse tipo de poesia, informou-se, lendo ensaios sobre a nova poesia, aderiu a ela e adotou uma atitude totalmente oposta à que tinha anteriormente, tornando-se um poeta experimental radical, que tinha como lema uma frase de Gauguin: “Quando eu aprender a pintar com a mão direita, passarei a pintar com a esquerda, e quando aprender a pintar com a esquerda, passarei a pintar com os pés”.

Ferreira Gullar foi um dos protagonistas na literatura brasileira da poesia concreta, mas tornou-se dissidente do movimento e passou a integrar um grupo de artistas plásticos e poetas do Rio de Janeiro: o grupo neoconcreto, surgido em 1959. Seus textos para o Jornal do Brasil fazem parte da história da arte brasileira, pelo que trouxeram de original e revolucionário. São expressões da arte neoconcreta as obras de Lygia Clark e Hélio Oiticica, hoje nomes mundialmente conhecidos.

Gullar, por sua vez, levou suas experiências poéticas ao limite da expressão, criando o livro-poema e, depois, o poema espacial, e, finalmente, o poema enterrado. Este consiste em uma sala no subsolo a que se tem acesso por uma escada; após penetrar no poema, deparamo-nos com um cubo vermelho; ao levantarmos este cubo, encontramos outro, verde, e sob este ainda outro, branco, que tem escrito numa das faces a palavra “rejuvenesça”.

O poema enterrado foi a última obra neoconcreta de Gullar, que afastou-se então do grupo e integrou-se na luta política revolucionária. No PCB, passou a escrever poemas sobre política e participar da luta contra a ditadura militar que havia se implantado no país, em 1964. Foi processado e preso na Vila Militar. Mais tarde, teve que abandonar a vida legal, passar à clandestinidade e, depois, ao exílio. Deixou clandestinamente o país.

Voltou para o Brasil em 1977, quando foi preso e torturado. Libertado por pressão internacional, voltou a trabalhar na imprensa do Rio de Janeiro e, depois, como roteirista de televisão.

Durante o exílio em Buenos Aires, Gullar escreveu Poema Sujo – um longo poema de quase cem páginas – que é considerado a sua obra-prima. Este poema causou enorme impacto ao ser editado no Brasil e foi um dos fatores que determinaram a volta do poeta a seu país. Poema Sujo foi traduzido e publicado em várias línguas e países.

De volta ao Brasil, Gullar publicou, em 1980, Na vertigem do dia e Toda Poesia, livro que reuniu toda sua produção poética até então. Voltou a escrever sobre arte na imprensa do Rio e São Paulo, publicando, nesse campo, dois livros Etapas da arte contemporânea (1985) e Argumentação contra a morte da arte (1993), onde discute a crise da arte contemporânea.

Outro campo de atuação de Ferreira Gullar é o teatro. Após o golpe militar, ele e um grupo de jovens dramaturgos e atores fundou o Teatro Opinião, que teve importante papel na resistência democrática ao regime autoritário. Nesse período, escreveu, com Oduvaldo Vianna Filho, as peças Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come e A saída? Onde fica a saída? De volta do exílio, escreveu a peça Um rubi no umbigo, montada pelo Teatro Casa Grande em 1978.

Mas Gullar afirma que a poesia é sua atividade fundamental. Em 1987, publicou Barulhos e, em 1999, Muitas Vozes, que recebeu os principais prêmios de literatura daquele ano. Em 2002, foi indicado para o Prêmio Nobel de Literatura.

Com informações da Academia Brasileira de Letras


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