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sábado, 4 de março de 2017

EMBRIAGAR-ME - Um Poema de Raimunda Lucinda Martins


EMBRIAGAR-ME

Quero embriagar-me
não com bebida alcoólica
sim com palavras
sentir-me tonta
cambaleante
correr com as pernas bambas
falar de forma quase incompreensível
soltar-me de toda timidez
viver o que parece proibido
desconcertante
partir as palavras
ao meio
descobrir os segredos
que existem nelas
envolver-me em névoas
e dentro delas
ver os sentidos cobertos
os que não são ditos
embriagar-me com as palavras
é me deixar tomá-las por inteiro
sentir entrando no sangue
na aveia
correr os caminhos
sem muros
sem armadilhas
que costumamos ver
quando as pronunciamos
Ora, cada palavra dita
sibilante
penetra a alma
retrai o que se quer
vir para fora que já é por todos conhecido
o que interessa é o que nunca foi dito
no sentido pervertido
no sentido desconexo
desacreditado
aquilo que já foi antes ultrajado
aquele que descobre o pensamento
que machuca
que fere a língua que o profere
Palavra por palavra
embriagante
cortante
afiada
descomunal
literariamente informal
ora, cada palavra feita
desfeita em sílabas
horripilantes
mostrando o mal
e o bem que nunca foi entendido
omisso
que se tornou mentira
mas escondendo realidades
que o homem teme que sejam
vistas
revistas
quero me embriagar
e viver em overdose
trazendo-me a vida
de outras palavras que
já foram ditas
há tanto tempo
que se tornaram por mim esquecidas
.................................
ACEITA UM TRAGO DE QUE PALAVRA, PARA SE EMBEBEDAR?
TIM TIM...
(03/03/2017)
Raimunda Lucinda Martins


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