Quer uma injeção na bunda ou um comprimido de dipirona?
Hélcio Silva
(05 / 11 / 2019)
Eu já carrego umas zoitocentas toneladas de idade.
Eu até que gosto de escrever com boa dose de humor e aceito
bem uma prosa alegremente humorada, porém, confesso, que ainda estou p. da vida com
o que me aconteceu ontem na upinha do Cohatrac, conhecida com socorrinho (é a
Upa do Cohatrac, próximo ao novo supermercado Mateus).
Estive lá na manhã de ontem para um atendimento médico que
exigia certa urgência, pela intensidade da dor.
Vi muita gente inquieta aguardando vez. Soubemos que só
havia uma médica na sala 10, num corredor abafado e estreito – sem qualquer
conforto...
Com uma demora de mais de quatro horas de espera, chegou a
minha vez...
Ufa! Agora vai!
Abri a porta e entrei... Sentei, olhei a médica... e ela nem
levantou a cabeça para olhar que cabra da peste era eu: ela estava no celular,
naturalmente, lendo alguma mensagem... Esperei... E ela, finalmente, perguntou:
O que o senhor tem?
- Desde ontem, estou a sentir uma forte dor no ouvido com
dores também no pescoço e no maxilar, com alguma dificuldade no abrir e fechar
da boca...
Ela voltou ao celular e começou a ler de novo alguma
coisa...
Fiquei a pensar... E meu pensamento ficou a falar
silenciosamente...
*estaria ela consultando o google?*... Não sei: se for, tô
lascado...
Mas a nossa médica, a seguir, começa a falar no celular com
alguém sobre uma viagem. Ela disse à pessoa que estava no outro lado da linha
que precisava viajar. Estava cansada de trabalhar e ganhar pouco...
Depois de um bom tempo de conversa, a Dra. desligou e telefone
e me fez a pergunta chave:
- O senhor quer uma injeção na bunda ou um comprimido de
dipirona?
- Dra, como é o seu nome?
- Eu sou a médica...
- Tá bem, prefiro o dipirona (para quem tem dor, um
dipirona já aguenta chegar em casa – pensei -)
Entregou-me um papel escrito dipirona, um comprimido..., e
disse:
- Vá à sala de medicamento, no início do corredor, e tome um
dipirona.
Na sala de medicamento eu vi três enfermeiras. Uma das
enfermeiras abriu uma gaveta, retirou uma cartela e colocou num copo descartável
um comprimido da tal/dita/cuja dipirona... E disse: tome... Eu perguntei: é só
isso?... Sim, só isso - respondeu a enfermeira...
E a água, como vou tomar o remédio?
Aqui não tem água, mas no fim do corredor tem um
bebedouro...
Não encontrei o tal/dito bebedouro... Nada mais havia o que
fazer: coloquei o dipirona e o copinho descartável na janelinha do corredor e voltei
para casa.
Esta história não é novela nem ficção. É um fato real,
aconteceu. Foi ontem, dia 4 de novembro de 2019, às 12 horas, na UPA do Cohatra...
Se o prefeito quiser saber da verdade – e até quem foi a
médica – tem o registro do meu atendimento naquele dia...
Tenho ouvido muitas reclamações sobre o péssimo atendimento
nas unidades de Saúde de São Luís.
A Saúde Pública em São Luís é um caos...
O que posso afirmar é que, diante dos fatos que acontecem diariamente
na saúde pública de São Luís (Sistema SUS), revela-se um quadro de total ausência de uma
medicina de qualidade, uma medicina de ponta, uma medicina de resultado, que
olhe e atenda o povo com mais respeito e competência.
Sem medicina de qualidade
não há saúde de qualidade...
Repito aqui, neste meu espaço, o que diz o artigo 196 da
Constituição Federal:
“Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado,
garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco
de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e
serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.
Breve, possivelmente ainda esta semana, escreverei um
artigo sobre medicina de qualidade.
A minha missão, meu trabalho e minha luta não representam uma guerra contra ninguém nem contra alguém, mas apenas um trabalho pelo bem público, pelas políticas públicas. Foi sempre assim e assim será até o fim de minha vida.

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