Brasileiros ignoram quem manda nas urnas
Ney Lopes
16/04/2026
Judicioso artigo de Paulo Baía, sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ, “abre os olhos” de quem acompanha o processo eleitoral brasileiro. O “recado” para os candidatos e marqueteiros é ter consciência, que não basta apenas “fazer marketing jovem”, e sim também construir uma comunicação política, que funcione para os eleitores mais velhos. O idoso não é o “vovô que precisa de ajuda”, mas o cidadão que sustenta a casa, consome e também decide quem sobe a rampa do Planalto. Hoje, representa cerca de 23% do eleitorado (mais de 36 milhões de brasileiros em 2026).
Dados da Nexus Pesquisa e do TSE revelam uma realidade que muitos preferem ignorar: o Brasil envelheceu, e o poder agora está nas mãos de quem já viveu décadas de crises. É uma força avassaladora e disciplinada, que toma conta do cadastro eleitoral brasileiro.
Invasão Prateada
O salto é assustador para qualquer marqueteiro: em 16 anos, o eleitorado idoso cresceu 74%, chegando a 36,2 milhões de pessoas. Enquanto o país cresceu apenas 15% como um todo, a terceira idade avançou cinco vezes mais rápido. Não é apenas uma mudança estatística; é uma transferência de poder. Quase um em cada quatro votos virá de alguém com mais de 60 anos.
Erro Fatal
A polêmica maior reside na ignorância das campanhas. Tratar o Facebook como “coisa de velho”, ou acreditar que o idoso é um eleitor passivo é um erro analítico crasso. Ao contrário dos jovens, que fragmentam a atenção em vídeos de cinco segundos, o eleitor idoso lê, compara e guarda na memória.
Muitas vezes, o eleitor idoso é tratado pelas campanhas como alguém que está em uma posição de carência extrema e, por isso, trocará seu voto por um benefício imediato, ignorando que, em muitos casos, ele é o principal arrimo de família e também quer segurança para os netos e educação de qualidade.
Entregar remédio, passagens gratuitas, brindes e prometer asilos aos idosos é fácil de usar em um comercial de TV. Reformar o sistema previdenciário, integrar o prontuário para que tenha acompanhamento geriátrico contínuo e criar uma rede de atenção básica à saúde, leva anos e não “gera foto”.
Silêncio que Decide
Ainda há uma “bomba relógio” de 11 milhões de idosos que não votaram em 2022. Esse contingente, majoritariamente acima dos 70 anos, é uma reserva de poder que ninguém sabe como ativar.
O recado do sociólogo Paulo Baía é um tapa na face do status quo político: o idoso não quer slogan, quer coerência. Ele não se ilude com promessas vazias porque já viu todas elas falharem antes. Em 2026, a democracia brasileira será escrita por quem tem rugas no rosto e memória de sobra.
Quem tiver ouvidos para os mais velhos, que ouça. O resto? Será engolido pelo peso do tempo.
Ney Lopes – advogado, jornalista, ex deputado federal.

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