domingo, 19 de abril de 2026

LEVANTA, MANGUEIRA! - Crônioca de Nonato Reis, jornalista, poeta e escritor

 LEVANTA, MANGUEIRA!


Nonato Reis

Dia de eleição no Ibacazinho é sinônimo de festa, alegria, congregação. Os amigos e parentes, geralmente dispersos por terras distantes, aproveitam para matar a saudade, atualizar os assuntos, celebrar a vida.

Gente que às vezes passa anos sem visitar o solo-mãe reaparece para a alegria do povoado, erguido à beira do Igarapé do Engenho, a meia hora a pé de Viana.

Não raro tenho dificuldade para reconhecer primos com os quais convivi na adolescência e jamais os reencontrei. Eis por que prefiro manter meu domicílio eleitoral em Viana. É uma forma de voltar às origens no duplo sentido, ainda que por breve tempo.

Em 1978, no pleito que Walber Duailibe, tratado como mito da política local, concorrendo para deputado estadual, obteve mais de 4 mil votos, só em Viana, registrou-se a maior concentração de primos forasteiros no lugar. Era como se todos tivessem previamente combinado ali um reencontro.

Aquilo merecia uma comemoração à altura. Porém João Cidreira, patriarca dos Cidreira, morrera fazia poucos meses e deixara no ar um clima pesado de contrição, que desautorizava excessos.

Um dia depois da votação, sentaram-se todos ao redor de uma mesa comprida com bancadas de um lado e de outro, no terreiro da casa de Ribamar Cidreira, filho do falecido.

A conversa começou previsível, recordando pequenos episódios de infância. Não demorou e alguém mais ousado pediu para descer uma “loira gelada”. Eu aproveitei e disse: “desce logo três”. Em pouco tempo, acabara o estoque de seis grades.

Não sei por que, nesse dia, eu, que sou um fracasso com álcool, encontrava-me incrivelmente lúcido, mesmo após completar a transição da cerveja para o conhaque e deste para a “azulzinha de Penalva”, a famosa Jatobá, melhor cachaça da região.

A atmosfera pesou e não foi por causa do clima de pós-morte. Paulo de Milton fitava uma árvore reta, longilínea, parecida com o eucalipto, em frente à mesa.

Seus olhos vermelhos feito brasa faiscavam. De repente começou a cantarolar o que me pareceu o verso de um samba. Dizia com os braços erguidos: “levanta, mangueira!”.

Mas não saía disso e eu entendi que ele, na verdade, se dirigia à árvore. Na sequência apanhou um galho de pimenta malagueta e mastigou aqueles frutinhos vermelhos sofregamente com folha e tudo.

Depois, já no auge do delírio, danou-se a beijar uma prima sentada ao lado dele, algo que ele, tímido de doer, jamais o faria em estado normal. Nunca esqueci a imagem dos dois com os lábios em brasa como se pintados de batom.

A coisa começou a desandar, já havia gente comendo sarapó cru como tira-gosto, ninguém mais tinha controle de nada e o dono da casa decidiu dar um basta naquela sem-vergonhice, expulsando os beberrões que, sem um destino certo, foram bater na casa do meu pai.

Ali dois primos, namorados de duas irmãs minhas, se pegaram numa luta corporal em pleno jardim que guarnecia a entrada lateral da casa, cujas plantas a dona Eulina cuidava com um zelo de mãe.

Depois, como a compensar aquela falta imperdoável, ajoelharam-se aos pés do seu Rena e pediram-lhe as mãos das meninas em casamento.

O velho, mal contendo um ar de contrariedade, respondeu que a decisão sobre aquele assunto não lhe cabia. “Isso não é comigo. É com elas que vocês devem se acertar". Marília, se roendo de raiva, ralhou com Derval: “nem a pau eu caso contigo!”. Rosane seguiu a irmã: “só se eu tivesse perdido o juízo!”, disse fuzilando Murilo com o olhar.

A fome bateu e me dirigi à cozinha. Encontrei Paulo lutando para comer um pedaço de galinha cozida, que a toda a hora caía no chão de terra batida. Ele o apanhava todo sujo e o levava à boca, mas não conseguia comer.

Aquilo me embrulhou o estômago e de súbito apaguei. Lembro de ter acordado noite alta às margens do Igarapé do Engenho, enlameado de vômitos feito porco, a cantar um samba de Paulinho da Viola.

A voz soava fantasmagórica, como que saída de um disco de vinil em rotação lenta. “Minha viola vai pro fundo do baú/Não haverá mais ilusão/quero esquecer ela não deixa/Alguém que só me fez ingratidão”.

Abri os olhos, olhei para o alto, o céu parecia límpido. Uma estrela cadente riscou o espaço e apagou de repente. O estômago embrulhado e a cabeça a explodir de dor, jurei nunca mais colocar álcool na boca. E cumpri. Pelo menos até o fim daquela noite.

...

Do livro A Mulher do Próximo, com lançamento para julho.


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