Civilização das fachadas
Alex Pipkin, PhD em Administração
A grande novidade do nosso tempo não é a hipocrisia.
Hipócritas sempre existiram.
A grande novidade factual é que perdemos o constrangimento da incoerência.
Nunca foi tão fácil defender uma coisa e fazer outra.
Nunca foi tão fácil discursar sobre virtudes sem assumir os custos que elas impõem.
Empresas falam em pessoas, políticos falam em empatia, instituições falam em diversidade, celebridades falam em responsabilidade social.
As palavras estão por toda parte.
O problema começa quando elas encontram a realidade.
A empresa que proclama que pessoas são seu maior patrimônio descobre que pessoas também aparecem na planilha de custos. A organização que celebra a diversidade descobre que a divergência é muito menos agradável do que parecia no relatório anual. A corporação que exibe credenciais ambientais descobre que o fornecedor mais barato continua sendo irresistível.
Os princípios permanecem absolutos enquanto não exigem sacrifício.
Quando passam a custar dinheiro, conforto ou poder, tornam-se negociáveis.
O mais curioso disso é que quase ninguém se surpreende.
Porque todos compreendem o jogo.
Durante séculos, a reputação era consequência do caráter. Era preciso construir uma vida para merecê-la.
Hoje, o caráter tornou-se opcional para quem consegue administrar a reputação.
Uma boa narrativa, uma campanha bem executada, um relatório “nobre” ou alguns posts cuidadosamente planejados podem produzir a aparência de integridade sem o trabalho incômodo de praticá-la.
Foi assim que começamos a trocar substância por imagem.
Edifícios por fachadas.
Não vivemos uma crise de valores; vivenciamos uma hiperinflação de valores declarados.
Há mais discursos sobre virtude do que virtude. Mais manifestações de compromisso do que compromisso. Mais preocupação em parecer do que em ser.
A definição mais precisa da nossa época é de uma civilização que aprendeu a administrar reputações antes de aprender a construir caráter.
Fachadas podem impressionar.
Mas são os alicerces que sustentam os edifícios quando a tempestade chega.
Passamos os últimos anos pintando paredes enquanto esquecíamos de cuidar das fundações.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Este blog só aceita comentários ou críticas que não ofendam a dignidade das pessoas.