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domingo, 29 de março de 2015

Ele enxugava as lágrimas do coração

Artigos

Eu & Ela

Escrito por Mhario Lincoln Publicado em Matérias em 28/03/2015

(*) Mhario Lincoln


Mhario Lincoln e Wlad Licnerski (artista paranaense-ilustrador do Guia do Extraordinário Poético no Twitter)

Primeiro Momento:

Por diversas vezes acordei no meio da noite para enxugar as lágrimas do meu coração que insistiam em inundar minha alma triste, dependente prisional de linhas poéticas que fervilhavam dentro de mim.

Nem imaginava que não havia sido nenhuma referência, até então. Para ninguém, nem pra mim mesmo. A vida transbordando no peito de quem grita por liberdade. Mas a solidão de atos sufoca e mata a esperança.
E todos esses anos garimpando no fundo do leito do meio rio, algo que me pudesse servir de exemplo para, desesperadamente, me encontrar nesse vago estado de coisas fantasmagóricas e inacabadas de minha consistência pessoal.

Segundo Momento:

A imaturidade turbulenta de minha angústia transpassava o equilíbrio possível, até ali. Pura incapacidade de rolar as dívidas do corpo e do espírito. Ilusão pirotécnica de que tudo se reduziria à palmas e fogos de artifício.
Precisava urgentemente ancorar num porto maduro. Crescer do menino ao homem, mergulhar nas profundezas da verdade, imergir com as responsabilidades tão inerentes às pessoas normais que me cercavam.
Fugir do céu parabólico, enfrentar auroras boreais de minhas frustrações, rompendo com o fogo e o desejo incontroláveis de possuir todas as sereias dos mares, atraído - voluntariamente - por seu canto embriagador.
Blocos de passado e presente evoluíam ao meu lado como fotossíntese. Transformavam meu oxigênio em febre carbônica, sem alcance, nem mesmo pela voz dos desertos. Passava incólume pelas oportunidades a mim oferecidas. Todas feito relâmpagos em temporais antropofágicos.

Terceiro Momento:

Minha alma chorou, no entanto, até o momento em que fiz dela, a lágrima, a bússola para regurgitar letras, parágrafos e frases, remédios entorpecedores num momento tão desprezível para quem insiste da desobediência da alma.
Foi-me, destarte, a poesia, a redentora dos buracos negros do meu universo. Fez-me ver que nem mesmo universo sou. Mas um meteorito incandescente que aguarda a atração simbiótica de alguma dimensão, de algum movimento relativo e uniforme, para ressurgir num planeta tão visível, como aquele que fica no lado esquerdo do peito.

(Mhario Lincoln, Curitiba, 27/03/2015, ao completar 61 anos.)

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