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sábado, 26 de setembro de 2015

NÃO HÁ PESSOAS IRRECUPERÁVEIS


Lúcia Moysés*






A vida de Paulo de Tarso é repleta de passagens exemplares e ricas em ensinamentos para o nosso dia a dia, como o caso daquela ocorrida imediatamente após o seu encontro com o Mestre Jesus na estrada de Damasco. Paulo encontrava-se momentaneamente cego. Ananias, um servidor do Cristo, tem uma visão com o Mestre na qual ele o convoca para ajudar o perseguidor dos cristãos. Conhecedor dos seus atos, Ananias retruca, dizendo o quanto tem ouvido acerca dos males que aquele homem estava fazendo aos irmãos de crença. Mas Jesus simplesmente lhe diz: “Vai, porque este é para mim um vaso escolhido para levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel.” Um vaso escolhido! Alguém muito especial para o Senhor! De fato, Paulo soube fazer jus à confiança nele depositada naquela hora. Ele foi não somente o convertido, mas também o redimido, tendo passado para a história do cristianismo como exemplo de recuperação.

Nos dias atuais, quando nossas penitenciárias e cadeias estão abarrotadas de pessoas condenadas a cumprir penas por delitos de toda sorte, temos a impressão de que a maioria da população tem dúvidas sobre a possibilidade de recuperá-las, de vê-las definitivamente afastadas dos caminhos do erro.

A verdade é que programas eficazes de ressocialização e reintegração de presos são escassos entre nós. Abandonados à própria sorte, convivendo com outros criminosos, vivendo na ociosidade, desqualificados profissionalmente, é de se esperar que essas pessoas, ao se verem livres, continuem no crime, reforçando as estatísticas que confirmam serem os mesmos irrecuperáveis.

Assim como o Mestre Jesus confiou na recuperação de Paulo de Tarso, uma mulher extraordinária – Maria Ribeiro da Silva Tavares – também apostou na ressocialização de presos tidos como irrecuperáveis. Viúva aos 24 anos, tendo herdado uma fortuna do marido, causou um verdadeiro rebuliço na sua família quando decidiu levar presos de alta periculosidade para viver em sua própria casa, ao lado do filho pequeno. Nessa época – 1936 – ela já trabalhava como voluntária no Presídio Central de Porto Alegre, o que lhe deu credibilidade para iniciar um projeto no qual empenhou toda a sua vida: o de recuperar pessoas consideradas marginais. Começou abrigando 36 presos, aos quais passou a tratar com dignidade e respeito. A semente frutificou e em 1942 idealizou e fundou, com recursos próprios e ajuda dos detentos, o Patronato Lima Drumond, em Porto Alegre.

Para melhor realizar seu trabalho, formou-se pouco tempo depois em Serviço Social. A monografia que apresentou como conclusão de curso trazia a frase que sintetizou toda a sua crença: “Não existem criaturas irrecuperáveis, mas métodos inadequados”.

E tem sido com essa filosofia de vida que, durante 72 anos de atividades ininterruptas, a sua obra vem garantindo atendimento a grupos de apenados dos regimes aberto e semiaberto, tornando-se referência na ressocialização e reintegração social de presos. Instituição ímpar, sem grades ou muros: as pessoas que lá estão, acolhidas com amor, sabem que a forma digna com que são tratadas e os cursos de qualificação profissional que recebem as habilitarão para enfrentar o mundo ao saírem da prisão.

Quando lhe perguntavam qual era o segredo de tamanho sucesso, a assistente social respondia: um tratamento baseado em confiança, diálogo e respeito. Prova disto era o seu jeito carinhoso de nominar os residentes no patronato. Para ela todos eram “anjos”. Essa metodologia de ação lhe permitiu receber em troca consideração e amizade.

Tendo chegado aos 102 anos, nessa época de grande exposição nas redes sociais, sua imagem, em cadeira de rodas, sendo levada por um dos seus “anjos” para um banho em uma praia gaúcha correu mundo.

A lição que nos fica é a da certeza de que o amor e a crença no valor intrínseco da pessoa são capazes de operar milagres. Desde muito jovem, D. Maria percebeu ser fruto de lares desajustados a maioria das pessoas que acabaram nas prisões. Entendeu que elas foram crianças abandonadas à própria sorte, sem a orientação de pais que as encaminhassem ao caminho do bem. Por isso, também empreendeu campanhas preventivas de amparo à família, reajustamento do lar e assistência à infância.

E nós fazemos coro com sua fala: precisamos estar atentos à educação da criança, dando-lhe orientação segura, exemplificando a ética e a boa moral para que se transformem em homens e mulheres de bem. Assim como Paulo de Tarso, precisamos levar a mensagem de Jesus aos corações infantis.

*Lúcia Moyses é educadora e escritora espírita - Escreve semanalmente no Jornal Correio Espírita

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