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terça-feira, 8 de setembro de 2015

SETE DE SETEMBRO

*Crônica de Maria Antonieta


Eu devia ter uns doze anos de idade.

Era fim de agosto e no colégio onde estudava, na pequena cidade do interior de Santa Catarina, havia a tradição do desfile de sete de setembro. Por esses dias as irmãs da Sagrada Família, mantenedoras e professoras do colégio, tinham a preocupação de levar os alunos e professores para as ruas adjacentes a fim de ensaiarem a marcha para a data nacional.

Havia grandes preparativos e não podíamos fazer feio. Ninguém podia desfilar com passo errado.

O uniforme das meninas consistia de uma saia azul-marinho, pregueada, blusa branca, meias brancas e sapatos pretos. Na cabeça uma boina da mesma cor da saia e luvas brancas completavam o traje de gala. Para mim, essa indumentária era um luxo. Vovó fez um par de luvas de crochet que eu ostentava com a faceirice e vaidade pré-adolescentes. 

Nos dias de ensaio eu chegava em casa para o almoço cansada pelo esforço da marcha, suada, com fome, os sapatos cheios de pó, pois as ruas não eram asfaltadas, mas me sentia muito feliz. Um sentimento de importância me transformava. Me sentia parte da grande massa chamada povo, que um dia levaria este grande país a ser reconhecido no mundo. Meus sonhos de menina eram bastante ingênuos.

Um orgulho enorme tomava conta de mim ao cantar o hino nacional, perfilada, mão sobre o coração, olhos postos na bandeira.

Quando acontecia de chover nessa data festiva, o desfile era cancelado. Uma decepção só! O uniforme caprichosamente passado e engomado, meu entusiasmo e orgulho de desfilar ficavam, então, adiados por um ano inteiro, até o próximo sete de setembro.

O sentimento patriótico ainda permanece em mim, mas o ideal de um país econômica e moralmente forte, faz tempo que vem minguando. Desde jovem acreditava que uma nação onde se prioriza a educação, a ciência, teria tudo para se tornar uma grande potência.

Muitos anos se passaram e não vi isso acontecer. Já estou na terceira idade  e esse sonho cada vez mais se distancia de mim...

Para minha decepção, o que vejo hoje é um total descalabro que começa lá no alto com a classe dominante e se estende até a base da pirâmide.

O sete de setembro parece ter perdido a importância. Os desfiles estão cada vez mais simplificados. Pouco público ainda se interessa por eles. Hoje são palco de manifestações e a bandeira do Brasil quase nem aparece em meio às bandeiras vermelhas e cartazes com reivindicações.

O nacionalismo sadio, o orgulho de pertencer a este enorme país, a fé no futuro...onde estão? Será que foram se perdendo ao longo dos anos ou ainda há alguma esperança de reencontrá-las?

*Maria Antonieta Camargo Amarante - Formada em Letras Português/Inglês pela Universidade Federal do Paraná.  Graduada em Língua Inglesa pelo Centro Cultural Brasil/Estados Unidos.


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