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terça-feira, 6 de outubro de 2015

COLUNA PRESTES EM PARAIBANO-MA

Por Leopoldo Vaz 

(Publicado anteriormente em 20 de março de 2011 no Jornal Estado do Maranhão)


Leio nos jornais de hoje que o IPHAN  está realizando a terceira etapa de inventário, buscando registrar os locais por onde passaram os rebeldes da Primeira Divisão Revolucionária.

Deixarei minha contribuição, transcrevendo trecho de livro que estou escrevendo, em parceria com minha mulher – a Profa. Delzuite Dantas Brito Vaz, professora de História do Liceu Maranhense; e nossa sobrinha Elisa Brito Neves dos Santos (Promotora de Justiça no período de 1972 a 1992, Procuradora de Justiça do Estado do Maranhão de 1992, até a aposentadoria, em 2009). A base, é a monografia de Graduação em História, orientada pelo Prof. Dr. João Renôr, da qual fui co-orientador.

PASSAGEM DA COLUNA PRESTES POR PARAIBANO

IN HISTÓRIA(S) DO/DE PARAIBANO (MEMÓRIA ORAL) por DELZUITE DANTAS BRITO VAZ, ELIZA BRITO NEVES DOS SANTOS, LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ (Inédito)

Sabe-se que a “Coluna Prestes” passou pelo Maranhão. Mas que parte dessa coluna passou pelo Brejo, não se tinha conhecimento até a defesa da Monografia de Graduação de Delzuite Dantas Brito Vaz , conforme se vê no depoimento prestado, a época, por Elisa Brito Neves dos Santos. Conta as pagina 149 e seguintes, que sua mãe fala dos “Revoltosos”, a quem estavam sujeito a receber. Seus tios estavam preparados a receber esses andarilhos dessa maneira: escondiam os cavalos, pois quando passavam trocavam os animais, pegando outros descansados. Os moradores escondiam suas montarias…

Um dia, vindos do lado do Riacho do Meio, uma turma de homens a cavalo – fortes, altos, bonitos, na descrição de sua mãe… – chega e são recebidos pelos “Paraibanos”. A avó da depoente, Joaquina Maria das Dores, teria feito comida para eles, pilando o arroz que seria servido.

Chamaram a sua presença a José de Brito Sobrinho (José Paraibano) e mandam apanhar os animais, que seriam trocados pelos deles. José Paraibano cheio de astúcia, de artimanha, saiu com uma parte desses homens pelas matas, a procura dos animais, que ele havia escondido.

Dizia Zé Paraibano que ouviam o barulho dos animais, perto de onde passavam, fazia de conta que não estava ouvindo: “mas eu não sei onde estes animais estão…” e levava aqueles homens pelas brenhas, pelos espinhos. Aquele matagal, sem estrada, sem nada; levava pelos piores caminhos. E os Revoltosos, já cansados e todos cheios de espinhos, disseram: “Não, vamos para casa, a gente não encontra esses animais, vamos para casa…”. E voltaram e assim conseguiram se livrar dos Revoltosos sem dar seus animais.

Para Elisa, era a parte chefiada pelo Juarez Távora , que passou por Brejo do Paraibano, em direção a Colinas , pela época dos festejos de Nossa Senhora da Consolação, a oito de dezembro. O que é confirmado por PINHEIRO, 2005, quando relata a passagem da Coluna entre Pastos Bons e Colinas, porém não faz referencia ao Brejo . Aí, a Coluna se instalou, passou vários dias; depois Juarez foi preso, já em Teresina-PI.

Na passagem pelo Maranhão a Coluna se dividiu em três. Segundo Prestes: Foi uma verdadeira divisão estratégica. Uma parte da Coluna ficou comigo e tomamos a direção do rio Balsas,[…]. Uma segunda coluna, comandada por Siqueira Campos para marchar mais ao norte […]. E uma terceira coluna, que era comandada por João Alberto, para marchar mais pelo centro. Mais todas orientadas no sentido do rio Parnaíba.

Na Matta (Dom Pedro), Manoel Bernardino – o Lênin do Sertão – se preparava para integrar o destacamento de João Alberto e, no dia 06 de novembro de 1925 invadiu Curador com 65 homens armados de rifle e usando todos como distintivo uma fita vermelha. Bernardino tratou todos com cortesia e solicitou de alguns comerciantes contribuição para as suas tropas. Não obtendo o resultado esperado, saiu da cidade no dia 08 (nov.) e retornou no mesmo dia à meia-noite, desta vez mais agressivo, invadiu as casas de alguns comerciantes e saqueou as mercadorias, distribuindo à população pobre o que não poderia ser levado.

A Coluna Prestes e o cavalo marchador de Sêo Sales

por Djalma Britto in http://www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=855

Em 1926, lá estão Sêo Sales e Dona Lili, na fazenda Serra Negra, preocupados com a possibilidade de virem a ser surpreendidos pela tal Coluna, pois, segundo ouviram dizer, para manter a tropa, os líderes ou responsáveis requisitavam mercadorias, bens, animais e tudo o mais necessário, com a promessa de serem ressarcidos tão logo fossem vitoriosos em sua intentada.

[…] Para não serem pegos de surpresa, Sales e Lili trataram de esconder as mercadorias que possuíam em estoque e reduzir a quantidade dos gêneros nas prateleiras da loja. […]

É nesse cenário que entra em cena, para espanto de todos, o Cornélio, intitulando-se emissário e negociador da Coluna. […] Deve-se esclarecer que o tal emissário era filho do “Velho Bodô”, vaqueiro da fazenda Serra Negra e homem de confiança de Sêo Sales. Dona Lili, que conhecia o Cornélio, desde que ele nasceu, pois nascera em Serra Negra, costumava passar-lhe “pitos”, ficou desconfiada e tentou demover o marido de sua credulidade.

[…] Coincidência é que os “revoltosos” – termo que Dona Lili se referia aos integrantes da Coluna Prestes – estavam, realmente, próximos à fazenda, distante cerca de quarenta quilômetros de Colinas, antigo Picos do Maranhão.

[…] Não tardou e os “revoltosos” chegam a Serra Negra e, como primeira providência de um dos oficiais, foi solicitar a Sêo Sales que lhe mostrasse a casa, alegando, naturalmente, que queria determinar a acomodação do pessoal que o acompanhava. […] como nada foi encontrado no local onde se afirmava ter mercadoria escondida, o clima ficou menos tenso. O oficial a que nos referimos era o Juarez Távora.

Foi então servida alimentação à tropa que se arranchou como pode nas acomodações da enorme casa centenária. Maneiroso, o oficial Juarez Távora disse a Sêo Sales que tinha conhecimento de que era possuidor de um cavalo de boa qualidade, marchador e famoso e que estava requisitando o animal, que seria devolvido posteriormente. Realmente, o tal cavalo era mesmo muito bom. Servia de montaria preferida para o meu avô. Sem titubear, Sêo Sales aquiesceu e disse ao oficial que poderia utilizar o animal, se o localizasse.

Começou, então, a caça ao cobiçado cavalo. Alguns soldados foram escolhidos para empreender a procura. Retornaram, horas depois, com algumas montarias, mas não exatamente o cavalo de sela do Sêo Sales. […]

Assim foi a passagem da Coluna Prestes pela fazenda Serra Negra. Anos mais tarde, Juarez Távora veio a São Luís. Meu avô era deputado estadual e recebeu a sua visita. Entre amenidades, o oficial Távora dissera a meu avô que o culpado por ele ter sido preso teria sido ele. Explicou: se o senhor tivesse me cedido o tal cavalo marchador, jamais teriam me surpreendido.

Chamava-se Cornélio.

Jamais o conhecemos. Era um irmão do pai velho que juntou-se à Coluna Prestes e jamais deu notícia à família. Dona Lili conta que Cornélio não permitiu que a Fazenda Serra Negra fosse ‘invadida’ pela Coluna e nem que o comércio da fazenda fosse saqueado. Era assim, com esse palavreado: ‘invasão’ e ‘saque’ que ela se referia à Coluna Prestes. Mas que Cornélio foi à sede da Serra Negra para dizer a ela e ao seu Sales que a Coluna não mexeria na Serra Negra. O meu avô falava pouco sobre ao assunto, só que o seu irmão Cornélio tornou-se um seguidor do capitão Prestes e ‘caiu nesse mundão de meu Deus’ e nunca mais deu notícias à família.”.

OS “PARAIBANOS”

Primeiro, vamos esclarecer de onde é a família de Antonio de Brito Lira – o Paraibano. Embora tenha recebido essa alcunha, era natural de Taquaritinga, naquela época município de Surubim – Pernambuco. A família tem início com o casamento de um Senhor de Engenho, casado  com uma portuguesa, da qual descendeu Francisco de Brito Lira. De seu casamento com Ana Maria da Conceição nasceram vinte filhos, dos quais sobreviveram dezoito e, destes, tem-se notícias apenas de ANTONIO (Antonio Paraibano); JOSÉ (Zé de Brito); JOAQUIM; JOÃO; FIRMINO; QUINTINO; FLORENTINO; ANTÔNIA; CONCEIÇÃO; JOSEFA; JOAQUINA. 

Além dos filhos que acompanharam Antonio de Brito Lira, vieram mais tarde outros membros de sua familia – irmãos, sobrinhos, primos, cunhados – que se instalam na região, à medida que o povoado se desenvolve em torno das casas que constroem. Chega sua mãe, a Sra. Ana Maria  da Conceição que morava em Surubim, depois Lagoa do Arroz.

Um irmão, José de Brito, adquire uma gleba de terra de Vitorino Fernandes, filho de José Fernandes.  Essa gleba se chamou “Chapada do Zé de Brito”. Mais tarde, chegaram outros irmãos – Quintino de Brito Lira, Florentino de Brito Lira; e Antônia de Brito Lira – Totonha -, esta veio se localizar na Ponta da Serra. Sobrinhos, como João Furtado Brito…

Mas os Brito, de Pernambuco, de há muito vinham migrando para o Maranhão. Alguns já se haviam instalado – a partir do Século XIX -, em regiões próximas a Pastos Bons. Cândido Lustosa de Brito – de Arcoverde-PE – se estabelece na região, habitando primeiro na Barra do Corda, depois no Grajaú, e por fim povoando o Alto Parnaíba. Segundo Eliza Brito Neves dos Santos, eram da mesma família…

Mais, os Brito Lira tinham ligação com o Senador Vitorino de Brito Freire[3], que também era pernambucano, e sempre lembrava ser parente de Guilhermino…

Os “Paraibanos” eram lavradores. Saindo da Paraíba, chegaram ao Maranhão em março de 1920, estabelecendo-se no lugar “País da Terra”; em 1921,  tiveram sua primeira roça, continuando com o mesmo tipo de atividade que já desenvolviam em Pernambuco. Em 1922, mudaram-se para “Jatobá” e em 1923 se estabelecem definitivamente no “Brejo”, e só em 1924 fazem sua primeira roça, localizada no “Poço Verde”.

Fugindo da seca, a familia de Antonio de Brito Lira deixa Pernambuco percorrendo vários estados do Nordeste, a procura de terras e trabalho. Passando por São Luís (década de 10), Antonio de Brito Lira e seus filhos ficam em um navio, por alguns dias, e dai partem para o interior do estado. Uns trabalhando na lavoura, como assalariados, no Engenho Central (Guilhermino, ainda garoto, chegou a trabalhar na Mercearia Neves, quando em São Luis).

Retornaram para a Paraíba. Passaram por Alagoas, depois de sua passagem pelo Maranhão, e depois, pelo Ceará, antes de retornarem ao Maranhão, definitivamente.

Antonio Paraibano ia constantemente a Juazeiro do Norte –CE, onde vivia seu primo Francisco de Brito Lira, pai de Antonio de Brito Lira – Antonio Duda -, casado com Maria Dadá, seus sogros. Antonio Paraibano vem a se casar com Joaquina Maria das Dores, filha de Antonio Duda e Dadá…

Nas conversas de família, contavam que saíram do Ceará após a “Guerra do Juazeiro”, ocorrida em 1914. Devem ter passado, pela primeira vez no Maranhão, entre 1910 e esse ano de 1914.

A região do Brejo, na época, não era explorada pela chamada grande cultura. A agricultura era de subsistência e eles começaram a exploração racional da terra, trabalhando com mais conhecimento, haja vista que saíram de uma região mais desenvolvida, com grandes plantações de cana e de algodão. Trouxeram novas técnicas.

Para iniciar sua lavoura, Antonio de Brito Lira – Antonio Paraibano – adquire uma gleba de terra – por 200 mil réis – de José Fernandes de Sousa, conhecido como “José Faustino”, cunhado de um grande proprietário rural, Faustino de Sousa, Capitão da Guarda Nacional. Daí ser a região conhecida, anteriormente, como “Brejo do Faustino”.

Quando da chegada dos “Paraibanos”, já haviam outros moradores ocupando as terras do Capitão Faustino, como agregados (meeiros), e alguns pequenos proprietários, que mantinham lavoura porem não produzindo o suficiente para se integrarem ao mercado, comercializando o excedente de sua produção com pequenos comerciantes; estes se abasteciam em outros centros, como São João dos Patos, mais próximo, e em Pastos Bons, a sede do município.

A região toda pertencia ao Capitão Faustino de Sousa e a sua família.  Essa terra era pouca explorada, com os agregados plantando apenas o suficiente para a sobrevivência e um pequeno excedente para a troca; mesmo o babaçu, o principal produto de exportação do Maranhão, era pouco explorado.

SANTOS, Elisa Brito Neves dos. DEPOIMENTOS. Entrevista concedida a VAZ, 1990, obra citada.

Fonte: A “REVOLUÇÃO DA MATTA”: SOCIALISMO E FUZILAMENTOS NO INTERIOR DO MARANHÃO
– 1921 AUTOR: Giniomar Ferreira Almeida "Monografia apresentada ao
curso de História da Universidade Estadual do Maranhão –
UEMA para obtenção do grau de Licenciatura Plena em História. 2003
http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_do_Juazeiro, acessado em 28/01/2009.

ASSUNÇÃO, Mathias Rohrig. A GUERRA DOS BEM-TE-VIS: a Balaiada na memória oral. São Luis: SIOGE, 1988, p. 220).

VAZ, 1990, obra citada. DEPOIMENTOS.

ROCHA, Décio Heider do Amaral. Alto Parnaíba. Jornal “O ESTADO DO MARANHÃO”, São Luís, segunda-feira, 05 de junho de 1989, p. 4, Opinião.

VAZ, 1990, obra citada.

BUZAR, Benedito. VITORINISTAS & OPOSICIONISTAS (BIOGRAFIAS). São Luis: Lithograf, 2001, p. 15-26.

BUZAR, Benedito. O VITORINISMO – lutas políticas no Maranhão –(1945 a 1965). São Luís: Lithograf, 1998.

BUZAR, Benedito. A GREVE DE 51 – os trinta e quatro dias que abalaram São Luís. São Luis: Ed. Alcântara, 1983.

BUZAR, Benedito. OS 50 ANOS DA GREVE DE 51. São Luis: Lithograf, 2001

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