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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A Visão da alma

Adilson Motta de Santana*


Lendo a obra Tratado Completo de Magnetismo Animal, escrita pelo grande magnetizador Barão du Potet, encontramos a história de Eugênia Morel, nascida em 1818, que segue aqui contada em resumo. Até os 11 anos de idade Eugênia tinha boa saúde. Porém, uma afecção intestinal lhe gerou muita fraqueza física. Dois anos depois, passou por um violento ataque de cólera que a deixou catorze horas sem consciência. Mais dois anos se passaram e ela foi acometida de uma hemorragia interrompida somente após oito dias. A partir disto, a sua saúde não foi mais a mesma, não conseguindo Eugênia recuperar-se por completo apesar dos esforços da Medicina. Durante um ano e meio foi tratada de uma doença do peito, depois de uma doença do coração e por fim, de uma doença da medula espinhal.

Passados dez anos, as duas pernas foram atingidas por uma paralisia que cedeu após quarenta dias. No ano seguinte, nova paralisia nas duas pernas com a duração de três meses. Mais dois anos e nova paralisia. A partir daí, nenhum movimento mais nas pernas. Em 1847, um ano depois, dores horríveis na coluna vertebral e na cabeça. No ano seguinte, paralisia nos braços. Em 1849, a bexiga estava completamente paralisada. No mesmo ano surgiram crises de epilepsia, cerca de oitenta vezes ao dia. O mal foi então considerado incurável pelos médicos.

Sem esperanças, a família resolveu submetê-la ao tratamento feito através do magnetismo animal. O Barão foi convidado a exercer a sua influência fluídica sobre aquela doente, que parecia ter nascido para o sofrimento e a dor. Após as primeiras magnetizações, os primeiros resultados apareceram e a doente já conseguia dormir melhor, ao mesmo tempo em que demonstrava grande sensibilidade magnética, revelando a capacidade sonambúlica. Ela declarou que via água na medula espinhal, que tinha sangue no estômago, congestão no ventre e um grande tremor no coração. Em sonambulismo, a doente indicou o tempo que era necessário deixá-la em crise e os alimentos que deveriam lhe dar para comer.

Com a continuação do tratamento, realizado duas vezes ao dia, com uma hora de duração cada, os ataques de epilepsia diminuíram pela metade em frequência e em duração. A bexiga começou a funcionar melhor. Porém, em meio às crises provocadas pelo magnetismo, ela perdeu um pouco da lucidez sonambúlica e passou noites sem conseguir dormir. Em pouco tempo ela mesma anunciou o dia em que retomaria a lucidez e a partir de quando voltaria a dormir bem, tudo acontecendo conforme predito por ela.

Os ataques de epilepsia cessaram completamente, acontecendo a cura completa da bexiga e ampliação da fala que há tempos tinha perdido a força. Os enjoos do estômago desapareceram.

Eugênia, em sonambulismo, recomendou que se fizessem dois cautérios que os médicos se recusaram a realizar. O magnetizador, aproveitando o estado sonambúlico, simulava os cautérios, utilizando dois dedos aplicados em suas costas, os quais Eugênia os sentia dolorosamente, como se queimassem realmente.

A sonâmbula afirmou o dia em que retornaria a sensibilidade do lado direito, ocorrendo conforme a sua previsão. Anunciou quando seria restabelecido por completo o movimento do braço direito e da perna, que poderia segurar um livro e folheá-lo. Informou quando voltaria a sensibilidade e o movimento do lado esquerdo. Afirmou que a cura completa precisaria de pelo menos mais um ano. Conforme suas predições, ela já conseguia sentar-se, depois andar no quarto e enfim no jardim. No tempo previsto, ocorria a cura completa.

À época, décadas antes do surgimento da Doutrina Espírita, estes fenômenos faziam parte do cotidiano dos magnetizadores. Teorias diversas eram levantadas para explicá-los. Os magnetizadores, porém, que eram espiritualistas, conseguiam enxergar na alma a causa destes processos. Tomando o termo alma como sendo o espírito encarnado, na conceituação de Allan Kardec, vemos que se trata de um fenômeno anímico, ou seja, realizado pelo próprio indivíduo, sem que este seja intermediário de outros Espíritos, o que caracterizaria a mediunidade.

A visão da alma, ou dupla vista, foi estudada e defendida pelo codificador do Espiritismo no capítulo “Emancipação da Alma” de O Livro dos Espíritos, sendo desenvolvida em outras obras, principalmente na Revista Espírita. Todo sonâmbulo possui a dupla vista, sendo esta encontrada também em indivíduos não sonâmbulos. Neste caso, a necessidade de um estado de transe é quase nula, o indivíduo como que vê duas realidades ao mesmo tempo, uma interpenetrando a outra. Como visto na história de Eugênia Morel, a visão pode não necessariamente ser do mundo espiritual, mas também de ambientes terrenos: visão à distância e através de objetos opacos, vista interna do corpo humano, diagnóstico e prognóstico de doenças e orientação ao tratamento. É a alma que se desloca e vê, que penetra a sua visão através da matéria, que intui o futuro e as circunstâncias preditas, podendo ser orientada, com ou sem o seu conhecimento, por Espíritos desencarnados naquilo em que as percepções do próprio sujet não consigam penetrar. A independência do Espírito com relação ao seu corpo orgânico faz com que aquele possa agir com maior liberdade, sem os entraves proporcionados pela matéria física.

À medida que a materialidade dos nossos Espíritos tanto quanto dos nossos corpos reduzam, o uso das faculdades espirituais durante a encarnação serão cada vez mais facilitadas, reservando o futuro grandes possibilidades para a Humanidade. Assim, o mundo espiritual e o mundo físico estarão cada vez mais próximos, figurativamente falando. As incursões fora do corpo, tanto quanto o contato com o mundo espiritual serão cada vez mais simples. Trabalhemos o nosso progresso espiritual e veremos esse futuro chegar mais brevemente.

*Adilson Motta de Santana - escritor e palestrante espírita

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