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terça-feira, 13 de setembro de 2016

A FALTA QUE ELE FAZ


*Sebastião Nery

RIO – O telefone tocou na casa de praia de Madame Schneider, uma francesa amiga de Juscelino Kubitschek, a 20 quilômetros de Saint Tropez, no sul da França, onde ele, dona Sara, as filhas Márcia e Maristela e o ex-secretário amigo dileto Olavo Drummond, passavam uns dias descansando, depois de deixar a presidência da República em 31 de janeiro de 1961.

Era o empresário, poeta e redator de alguns dos históricos discursos de Juscelino, Augusto Frederico Schmidt, falando do Rio:

– Juscelino, estou recebendo um clipping das revistas dos EUA. A revista “Time” está dizendo que você é “a sétima fortuna do mundo”.

Conversaram, Schmidt desligou e Juscelino ficou deprimido, amargurado. Olavo o chamou para darem uma volta:

– Presidente, hoje de manhã, quando fui comprar os jornais, quem estava na banca era a Brigitte Bardot. Podemos encontrá-la de novo.

Juscelino riu. Saíram. A primeira pessoa que viram foi a Brigitte Bardot, no auge do sucesso, com aquela carinha de paraíso terrestre depois da maçã, cercada de fãs, tirando fotografias. Juscelino se afastou:

– Olavo, se eu sair com essa mulher em um fundo de fotografia, a imprensa vai dizer no Brasil que estou namorando com ela.

Mas não esqueceu a história da “sétima fortuna do mundo”.

Quatro anos depois, a embaixada da Inglaterra no Brasil mandaria a Londres um documento para o “Foreign Office”, sob o cód.371/179250:

– “O ex-presidente Kubitschek retornou ao Brasil. Não há dúvida de que ele é popular, com seu charme e suas ideias expansivas e grandiosas. Mas ele era um verdadeiro símbolo da corrupção, saiu da pobreza para a posição de sétimo homem mais rico do mundo, segundo a revista “Time”.

Essa história do “sétimo homem mais rico do mundo” era então exaustivamente repetida pelo ex-deputado da UDN baiana Aliomar Baleeiro, e outros udenistas, civis e militares, depois do “Golpe de 64”.

Era uma velha indignidade. Na véspera de passar o governo a Jânio Quadros em 31 de janeiro de 1961, Juscelino reuniu um grupo de ministros, auxiliares e amigos no Palácio da Alvorada. Chega Jose Maria Alkmin:

– Juscelino, estou seguramente informado de que o Jânio vai fazer um discurso agressivo contra você, na sua frente, na solenidade de transmissão do cargo, no Palácio do Planalto.

– Vou passar o cargo ao presidente que o povo elegeu. Só o Dutra passou. Quero dar uma demonstração ao mundo de nossa democracia.

– E se ele fizer um discurso agressivo?

– Dou-lhe uma bofetada na cara e o derrubo no meio do salão. Vai ser o maior escândalo da história da República.

Não houve discurso nem bofetada.

CARTA DE JK

“Rio de Janeiro (GB) 15 de agosto de 1973.

Meu caro Sebastião Nery.

Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que Sarah e eu ficamos encantados com a dedicatória com que nos distinguiu. Ao oferecer suas 350 Histórias do Folclore Político.

Palavras, não do fulgurante jornalista, mas do amigo de sempre, fiel e querido. Realmente, você tem razão: os políticos, os dirigentes dos países, os estadistas não fazem a história. Nem a compõem tão pouco os heróis de Carlyle. Os homens públicos apenas se agitam, quando muito, como você o diz, lançam a semente.

O seu excelente livro fez-me a alegria de uns dias intermináveis, porque a cada anedota, a cada uma dessas admiráveis blagues eu voltava com ansiedade e o riso renovado.

Ainda bem que os homens do passado fizeram a crônica dos tempos políticos não com a violência, mas com a graça, o humor e esta extraordinária sensação da consciência limpa e tranquila.

O que você conta se renova, através da força com que reveste o dito e dá festa de sol e calor a esses casos isolados do interior que na sua pena de mestre se projetam na grande página da capital.

Particularmente, sinto-me honrado de figurar neste seu suave repositório de verve e de sutil perspicácia, repleto de uma cordialidade que nos une e nos comove.

Receba meus parabéns e sinceros agradecimentos.

Com muita amizade e crescente admiração, do amigo de sempre.

Juscelino Kubitschek”

(No dia 22 de agosto fez 40 anos que JK morreu. Foi o maior presidente que o pais teve. E a falta que ele faz!)


*Sebastião Nery é jornalista e escritor. Foi deputado Federal.

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